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(imagem de Victor Melo, www.thousandimages.com)

MARROMENOS? NEVER.

               Tenho horror ao marrom. Explico-me: ao “marromenos”, aquela coisa que nem usa e nem desocupa, o que é sem nunca ter sido, o que late mas não morde, o que faz que entra e só bota um pé porque o outro tá colado na traseira, de medo. Causa- me arrepios de medo essa coisa de infelicidade branda, que não escancara, que mostra meio sorriso e se veste bem blasè que é pra ficar mais elegante. 

               Não agüento essa tristeza muda, que não grita, elegantemente disfarçada e com o desespero maquiado pelas cores da estação, que só serve mesmo para botar uma nuvem sobre a gente e pintar de gris, que é mais chique que cinza, o desespero real que nos assola mundo adentro. 

               Não sei se nasci assim ou fui virada do avesso, mas a verdade é que me aterroriza o comedimento que entra insidioso, dissimulado feito serpente e se mantém bem disfarçado diante dos nossos olhos que apenas servem de enfeite ao rosto, porque não vêem mais nada, e fica lá escondido, sem se deixar perceber para irmo-nos convencendo lenta e homeopaticamente que a vida é esse marrom – “marromenos”, o avesso de estar vivo, um ou outro suspiro esporádico de alívio em meio a dores permanentes e intermináveis. 

               Posso estar do avesso, posso não ser adequada, posso ser um aborto da natureza, mas temo terrivelmente que a tristeza e a descrença possam, finalmente, alfabetizar minhas poucas convicções e que eu me transforme numa cult em polidez e elegância (?) emocional, uma PhD em política externa e que, no quesito emoção e respeito, é um zero à esquerda. Não quero meus olhos transformados em olhos de vidro, com a maquiagem adequada às Barbies de plantão, não aceito endurecer e embrutecer muda diante de tanta “educação sentimental”. 

               Resisto. Que me queimem, como convém fazer às bruxas. Vou queimar rindo, como também convém a uma. Pra ser exata, gargalhando, que o riso frouxo e político também não me serve. Mas não me verão paralítica daquilo que sou, não me farão soldadinho de chumbo ou bonequinha de revista. Não aceito me perder e passar o tempo que me restar, de olhos e coração vazios, achando que o tempo irá me absolver por ter-me perdido de mim.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 14/09/2006
Reeditado em 14/09/2006
Código do texto: T240018

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154026 leituras)
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Débora Denadai

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