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AMOR DE POETA.- Parte 1


Sou poeta. Pensei que não era. Pensei que poeta fosse um outro tipo de gente. Uma criatura intocável, detestável, e de poucas palavras. Eu mesmo não me julgo um poeta. Estou tão distante deles que o que escrevo é apenas intenção poética, jamais serei reconhecido como tal. Quem diz que sou poeta, são as poesias que escrevi, e por acha-las imaturas e ingênuas,  mantenho-as dentro da gaveta a sete chaves. De vez em quando abro a cela e as deixo respirar um pouco, não sou um sujeito injusto, justo eu que jamais abati um inseto qualquer, mas a vida é assim mesmo. Uns ganham outros perdem. Eu ganho paz. As poesias permanecendo sem contato com o mundo externo, esquecem da idéia de tentar me convencer de que sou um poeta.
Eu queria ser um poeta. Juro que queria. Mas existe uma distância imensa entre querer ser e ser o que se quer ser. Se alguém me perguntasse como comecei a ser poeta, a resposta óbvia e esperada é a de que encontrei a minha musa inspiradora. É e verdade. A mais pura e absoluta verdade. Bom! Eu não era poeta, acho que nunca fui. E jamais pensei que seria. A primeira poesia, se bem me lembro, saiu assim feito um espirro. Rápido e sem jeito de segurar. Quando vi, estava lá um verso que eu não conhecia e que de certa forma esperava que eu o reconhecesse como filho, afinal havia saído de dentro de mim. Mas ele não era meu. Já nasceu com o destino devidamente traçado. Ele pertencia a minha musa inspiradora. Mas antes que ela tomasse conhecimento deles, e por pura piedade, qualidade latente das mulheres,optasse por  querer adota-las, eu necessitaria abrir a guarda e declarar meu amor a ela. Mas poetas não sabem se apaixonar, sabem poetizar. Devo dizer que identifiquei o poema agitador,o mentor intelectual, aquele que incendiava os ânimos dos incautos poemas. Imaginem o que fiz com o desgranido do poema. Usei de um pequeno subterfúgio para poder trancafia-lo dentro da gaveta. Ataquei na parte mais delicada de um poema, a sua auto-estima. Disse que ele estava coberto de razão em achar que era um poeta. Olhei-o demoradamente. Peguei ele em minhas mãos e verti falsas lágrimas de emoção. Não deu outra. Quando ele titubeou, jóquei-o dentro da gaveta. Ele foi o primeiro, outros tantos com o passar dos anos, super lotaram o exíguo calabouço dos poemas esquecidos.
Para tirar a possibilidade de que eles,os poemas estivessem certos quanto a eu ser poeta, fui ao dicionário pesquisar a palavra poeta.
po.e.ta  - adj. e s. m. 1. Que, ou aquele que tem inspiração poética. 2. Que, ou aquele que se dedica à poesia. 3. Que, ou aquele que faz versos. 4. Que, ou aquele que devaneia ou tem caráter idealista. Fem.: poetisa.
1.Não tenho e acho que jamais tive inspiração poética. 2.Não me dedico integralmente à poesia. 3.Não faço versos o tempo todo. 4.Esta parte do devaneio eu gostei, agora, sobre ter caráter idealista, isto é outra história e que não convém comentar agora.
Não quero publicar agora estes poemas. Não enquanto estiver vivo.  Depois que façam deles o que bem quiserem. Ai eles não serão mãos responsabilidade minha. Claro que não quero morrer prematuramente. É claro também que tenho medo de ser poeta. É muita responsabilidade para um só individuo. E eu tenho mais o que fazer na vida do que perder tempo compondo versinhos açucarados e entediantes.
Adão Jorge dos Santos
Enviado por Adão Jorge dos Santos em 17/09/2006
Código do texto: T242820
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Sobre o autor
Adão Jorge dos Santos
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
70 textos (8136 leituras)
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Adão Jorge dos Santos