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LANGOR D'ÁFRICA

 I

Ao entardecer, sob o forte calor

Me dirijo à sombra de uma enorme árvore

Sentado em sua raíz, olho o horizonte

Tão longe e tão perto

A vegetação escassa  parece um deserto

A savana ressequida se estende

O céu parece que entende

Curva-se de encontro a terra

O crepúsculo avermelha as nuvens

Tons de todos matizes

À emoldurar o céu numa profusão de cores

As buganvilias estão em flores

Sinto uma sensação estranha a subir-me pelos pés acima

Aquilo toma todo o meu ser

Ao recostar -me na árvore

A sensação aumenta

Fecho os olhos, algo vem à mente

Finjo não entender, sou descrente

África, berço da humanidade,

África, palco de tamanhas atrocidades

Ouço um murmúrio, algum barulho

Parece ser um choro ou um lamento

Presto afinal atenção

Não .. não é visão

A terra e a árvore me transmitem tal sensação

Olhos fechados, tento e não consigo abrí-los

Em tela mental, agora sim, vejo real

Vejo o choro da terra de norte a sul

É negro o que poderia ser azul

Ouço o látego cruel a chicotear

Ouço com perfeição a mãe chorar

Um grito, um ai e mais um lá vai

Opressão e escravidão

No cais o navio apita, a turba se agita

Como porcos são entulhados, porões lotados

Viajar para trabalhar, viajar para mourejar

Viajar para rancores acelerar

Viajar para se escravizar

II

Olho o horizonte o vermelho não é do crepúsculo,
é um horizonte manchado de sangue

Recostado no tronco potente, nele a cabeça encosto

A sensação continua forte

Novamente ouço gritos, agitos

Choros e ais, coisas e tais

Liberdade, liberdade, chega de colonia

Cidadania se faz imperiosa, independência angustiosa

Imperialistas, comunistas, capitalisas, o tacão continua

Refém do próprio sentimento, suor amargo da dor

Da dor da impotência contra a independência

Prisões abarrotadas, denúncias, achaques

Ataques

Roubos e patifaria , quem diria

Lideranças postas a ferro

Mas o povo não se entrega, mesmo que vá à guerra

Sangue jorra caudaloso, socorro só o próprio povo

Lutar e morrer, subjugado, melhor morrer

A fome grassa por todo canto

A miséria se faz farta, para essa gente, tudo falta

Doenças assolam o país, agora se morre de outras formas

Inanição, subnutrição, bala e tocaia

Segue a frente na busca da liberdade

A esperança é a última chance

Tal o amanhã que nunca morre

Independência conseguida

O preço da sociedade falida

III

Olho o horizonte....

O véu da noite já cobriu de sombras

Só vislumbro contornos

Ao longe o pio da coruja

Próximo outra cena estarrecedora

Pai matando o filho, filho matando pai

Crianças de arma na mão, coisa que poderia ser pueril

É apenas a guerra civil

Outra vez o país em chamas

Outra vez a desgraça à assolar

Divergencias políticas, fogo das críticas

O engrossar das vozes, os acordos desfeitos

Candidatos a senhores do que restou do país

O povo de novo passando necessidades

Imperioso é atender as autoridades

Irmão contra irmão, o estandarte da verdade

Uma verdade que às vezes é falsidade

Ideais, mentiras, miséria

Discursos de louvor à violência

Criança desde cedo perde a inocência

Se navegar é preciso, lutar também é preciso

Nessa ãnsia louca matam a pomba da paz

Nessa ãnsia louca, político não se satisfaz

Novamente prisões apinhadas

Lideranças assassinadas

O convivio social já não existe, mas insiste

IV



Me levanto, abro os olhos e sigo meu caminho

Vou pensando em tudo que me mostrou

A grande árvore em contato com a mãe terra

Reflito sobre isso, me imagino um lixo

Sou parte da humanidade que comete atrocidade

Sou descendente do povo conquistador

Isso só me causa dor.

É lógico que cada cultura tem seu modo de pensar

Que cada povo tem sua peculiaridade

Mas precisa tanta insanidade ?

Se temos o dom da palavra, por que não dialogar

Para nossas diferenças acertar

Levar numa boa, mesmo que seja uma coisa à toa

Por que sobrepujar sobre outros povos e escravisar.

Aquela tarde aprendi muito

Aquela árvore muito me ensinou

Seria a árvore a me dar lições numa intuição

Ou minha consciência a me chamar a atenção

Agora aqui, do outro lado do oceano

Me lembro da mulemba, está lá, não me engano
GDaun
Enviado por GDaun em 01/10/2006
Código do texto: T253500

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Sobre o autor
GDaun
Lupércio - São Paulo - Brasil, 72 anos
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