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Acorda...poetisa!

      (A Você!)

                             
         Ao som tímido de mais um despontar de aurora outonal, antes que, a me assustar, o relógio me soasse as badaladas da meia-noite...gentilmente, ele resolveu me despertar.
         Não chacoalhou meu corpo...mas como trepidou a minha alma!
         Sequer me beijou. Nem me chamou de “meu amor”.Tampouco abriu a janela para que, devagarzinho, o sol entrasse e disfarçadamente aquecesse o frio deixado pelas  cinzas das paixões!              
         Também não fez nenhum barulho.Pelo contrário!
         Despertou-me ao som do silêncio sepulcral que sela todos os adeuses.
        Ninguém melhor que ele, conhecia a artimanha dos poetas, sempre pronta a trapacear nas  letras.E de certo, teria sucesso.A poesia nunca falha, e foi justamente ele que me ensinou a força de um poema...
       Que árduo aprendizado! Seus versos atravessaram  meu espírito e avivaram minha razão...

       Não, não era apenas o "seu amor" que  ele precisava acordar.
        -Acorda poetisa!
       
       O  seu pedido, de eco longínquo, subliminarmente me soou legítimo, embasado no sagrado que todos temos o dever de preservar. Eu tornara-me o seu verso branco. Jamais o poeta  fizera sonetos reais com nossas rimas virtuais!
       Nossos  versos desavisados e improvisados no tempo, se perderam pela vida. Nunca passaram de inspiração intrusa, e fugidios... foram calados pela consciência.
       Mas ele , viciado no ópio das rimas e dos sonetos,   esquecera de me ensinar que coração de poeta... não tem travas.
       Não saberia ele, que na calada da noite se brotam impensadas, inesperadas e insistentes rimas?
       Nunca soubera o poeta, que o pensamento é sempre livre, e que o desejo alça vôo teimoso...além dos limites da proibição?         Ora, ora...não aprendera o poeta que nunca, mesmo no devaneio da poesia, devemos experimentar o fogo, sob pena de nos arder para sempre?
       Ah...será que esse incauto poeta, ainda não constatara  que as raízes da saudade abalam até mesmo os poemas edificados no concreto?
       Não, não seria eu a lhe ensinar o que um poeta já nasce sabendo.
       Não seria eu  a pedir  socorro, para quem, sob meus insistentes gemidos, me calara a inspiração,ainda que delicadamente em versos ...sem  direito a prosa!

          -Vamos lá, aquiete-se poetisa!      
       Restara-me apenas a rendição às suas linhas, às margens do seu império de granito...que se reerguera após o desatino da sua frágil paixão.
     Então, respeitosa e resignadamente, sorvi seu urgente imperativo poético...e fiz-lhe meu último pedido:


            “Que na rima da  minha antítese sofrida,    caiba ...
           no acordar do "seu amor"...o adormecer da minha dor... “  


                           SP,11/06/2006
MAVI
Enviado por MAVI em 05/10/2006
Código do texto: T256656

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Sobre a autora
MAVI
São Paulo - São Paulo - Brasil, 56 anos
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