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Jota Pê beirou o meio-fio e parou

Jota Pê beirou o meio-fio e parou, assim, sem movimento, sem passos, o sol metendo-lhe caretas na cara, movendo-se à velocidade da Terra, translacional e expandindo com o universo de éter. Nisso, Jota Pê na esquina, em seu movimento estático ao olhar d. Tâmara sair da loja de departamentos, o pescoço indo da direita para a esquerda em busca de ladrões, seu rosto denotando culpa pelo gasto desnecessário que ela irá explicar pelo amor aos detalhes porque gastara em bijuterias, sandálias novas, um vestido e algumas toalhas. Vai alegar ao marido raivoso que estavam em promoção, "on sale", como tinha na porta, essa, por onde passa um cão, o que vive por ali, largado, sem ninguém pra gritar com ele, virando latas como sua raça lhe obriga, sem dar satisfações ou a pata, fazendo o que quisesse, comendo o quê e quem quisesse, assim se conforma o cão, esquivando dos transeuntes, como Flávio, namorado da Silvia. Jota Pê e todos assim sabendo desse affair, bem como do affair de Silvia com Carlos, o guitarrista de sua banda, que por sinal cruza com o casal: Flávio cumprimenta o outro com a alegria mais triste do mundo, sabendo e não sabendo de nada, por que o amor, ah, o amor assim o faz, Flávio espera que ela se veja errada, mas ela pula no pescoço do colega de banda, aos risos, Carlos, aos constrangimentos, mal a tocando, e se entregando, porque é assim que os casais fingem que não se amam: não se tocando. Lógico que o contrário ocorre a dez metros dali, quando a atenção vai para seo Maga, de Magalhães, e Marisa, sua ex-esposa, que se beijam e abraçam aos tapinhas, falando sobre os filhos mútuos e o tempo; não o tempo filosófico, o tempo foi-é-será, vidas em conjunto, sucessão de momentos; mas o tempo-clima, se acaso choveria ou não.

Jota Pê podia ter parado ali naquela esquina por vários motivos, mas ao ver seus pais, que rolaram na lama de Woodstock fazendo amor eterno, ele, pra seu azar, constatou o que poucos constataram durante a própria existência: O cão era e é o que é.
Serennus
Enviado por Serennus em 07/10/2006
Código do texto: T258151
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Sobre o autor
Serennus
Parnamirim - Rio Grande do Norte - Brasil, 37 anos
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