Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

VELAS AO MAR

Na mesa, sozinho, no restaurante perto de casa,
Conto as pessoas que restaram até agora.
São doze ao todo (e eu a décima-terceira).
Não há ninguém ali para me vender ou trair.
Nem trinta e três moedas valeriam alguma coisa.
Na mesa há pão e vinho para me distrair
Até que o prato chegue fumegante.
Na verdade são minhas únicas companhias.
E o garçom! É, o garçom que vem a todo instante,
Perguntar se espero alguém, se pode servir.

O prato chega, a fome vai. Meu pensamento
Está no quadro ali em frente. Uma marina!
Gaivotas voam contornando as velas estufadas.
Há espumas brancas nas ondas levantadas
Formando um contraste vivo no azul-verde do mar.
Outro veleiro, um pouco mais distante,
Mostra o aceno de braços levantados
Saudando o meu veleiro que se vai.
As montanhas que aparecem ao fundo
Indicam que estou próximo do litoral.
Mas, o veleiro segue em direção oposta.
Em busca do alto mar. Em breve, nem “terra à vista”
Alguém poderá anunciar.

Na mesa ao lado, crianças são assistidas por mãe
Atenciosa, cortando suas carnes vermelhas.
"Esqueço de quem sou para sentir-me pai".
E das vezes que cortei as carnes e curei as feridas.
Provo a comida ainda morna e o sabor realça.
O vinho e a água não saciam a sede. Bebo mais.
O vinho traz uma sensação gostosa de uva nobre
E da terra bem cuidada. Sabor de madeira antes
De a bebida ser engarrafada. A água refresca o
Paladar, mas também não mata a sede.

Nas mesas não há nenhum traidor.
Talvez para mim tenha sido escrito este papel.
Então, que se cumpram as escrituras, se for
Essa a linha principal da lei. Não nego nem que
O galo, se houver galo, cante três vezes.
Na verdade, não há a quem trair.
Amanhã caminharei para o julgamento
E não apresentarei defesa. Lavaram as mãos
E enxugaram na toalha sobre a mesa.

As pessoas se foram, os pratos foram retirados.
Na garrafa ainda há uma última dose.
Um pouco desse sangue ainda resta.
Apenas o necessário para o fim da ceia.
Consumo com prazer a última sobremesa.
Digo uma frase sem nexo à companhia invisível,
Levanto-me e pago a despesa no caixa, na saída.

Lá fora uma noite quente e calma anuncia
Que o dia que se segue terá tempestade.
Caminho para casa na rua vazia, sem receio
Que a casa tenha companhia. Todos se foram.
Nas paredes só ficou a energia da vida
Que um dia elas abrigaram e protegeram.
O leito está vazio. A sala está vazia. A vida está vazia.

No rádio a canção anuncia que uma nova esperança
Em breve, vai acontecer. E que na parede da memória
Essa lembrança foi o quadro que doeu mais.
Recordo que o poetinha escreveu que “há muita paz
Para um domingo assim”, e que “é o infinito essa casa
Pequena”.  Dou razão às trovas.

Mas, a vida nos transforma.
Assim como o alimento sacia a sede e a fome,
A vida nos alimenta com ilusões que um dia se vão.
E assim se preenchem os dias. Buscamos outras mesas,
Outro vinho e outro pão. Onde outros doze em companhia
Comerão. Trinta e tres moedas pagarão o banquete.
Um, certamente, não há de nos trair. A vida preparou
Esse cenário. A multidão já se aglomera. A bacia com a água
Já espera. Não há Pedro, não há João, não há Judas,
Não há galos, nem Pilatos. Só a bacia com a água nos aguarda.
E a multidão. Essa assiste ao espetáculo.
Preferem a nós que aos ladrões.
E, conscientes do nosso destino, entramos no palco
E concluímos a encenação!
...........................................................

O barco ainda flutua. Não há vento. Há calmaria.
A tevê anuncia que encontraram um veleiro à deriva no mar!
Sobre a mesa o pão e o vinho. Mais trinta e três moedas.
Uma bacia com água limpa. E uma toalha de mesa ainda molhada!

16.10.06
Nota do autor: os trechos entre aspas referem-se ao "Soneto de um Domingo", de Vinicius de Moraes, Rio, Setembro de 1944.

Comentários do autor:

Nós que escrevemos temos o hábito da observação. Temos o hábito de receber os sentimentos das outras pessoas como nossos. Já vimos pessoas sós. Já nos sentamos a sós como o personagem, por isso entendemos a solidão. Não que os outros não a entendam ou não saibam o que é a solidão. A diferença é que buscamos outros significados para ela. Neste caso, a solidão de quem já foi julgado sem que tivesse chance de esboçar defesa ("Amanhã caminharei para o julgamento e não apresentarei defesa").

São as pessoas que nos traem ou somos nós que montamos o cenário? Note as frases: "Nas mesas não há nenhum traidor. Talvez para mim tenha sido escrito este papel" e "Um, certamente, não há de nos trair". Seremos nós mesmos os nossos verdadeiros traidores? O cenário será reeditado tantas vezes quantos forem necessários até que um não nos traia?

A perspectiva invertida de quem será julgado já sabendo o resultado do julgamento e sobe ao cadafalso. A omissão do julgador. As pessoas que nos servem de referência optam não por nós, mas pelos verdadeiros "culpados". Finalmente, simbolismos como "barco à deriva" (vida à deriva?)e a toalha ainda molhada pelas mãos da omissão récem-enxutas. Ao escrever sobre a toalha veio-me uma frase da letra de uma canção de Ma. Betânia em seu disco Drama: "Limpo no pano de prato, as mãos sujas do sangue das canções".
Paulo Sergio Medeiros Carneiro
Enviado por Paulo Sergio Medeiros Carneiro em 16/10/2006
Reeditado em 11/12/2006
Código do texto: T266085
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2006. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Paulo Sergio Medeiros Carneiro
São Paulo - São Paulo - Brasil
63 textos (9678 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 09:02)
Paulo Sergio Medeiros Carneiro