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O Sísifo Contemporâneo

Personagens

Narrador
Sísifo
Zeus
Hades
Esposa de Sísifo
Hegina (Filha de Asopo)
Rio Asopo
Tánatos



Entra o narrador-personagem só de meias, paletó, calça e gravata sobre o braço, sapatos na mão. Caminha até o centro da sala, olha a platéia e começa a dizer o texto. Ao mesmo tempo em que fala se veste em frente à platéia. Essa alegoria representa simbolicamente a oposição entre a pessoa sem status e aquela com status, tem a intenção de prender a platéia e ao mesmo tempo, correlacionando com o texto, ilustrar que na sociedade atual  –regrada pelo mercado financeiro – os valores de dignidade, caráter, e personalidade são confundidos com o status do indivíduo, principalmente, poder e imagem caracterizada pela mídia.

Narrador-Personagem – Aqui é a classe de psicologia? Sim? Que bom, então estou no lugar certo. Então vocês serão psicólogos? E foram livres para escolher essa profissão? Ou melhor, vocês são livres? Quem aqui não já se sentiu preso a uma rotina enfadonha? Não uma rotina qualquer, mas aquela que depois de anos e anos e anos, de repeti-la incessantemente, você parou e olhou em volta. Aí percebe que esteve preso a uma armadilha, como um cachorro a perseguir o próprio rabo. Você não chegou a lugar nenhum. Inconsciência absoluta. Isso pode levar à loucura! E é cada vez mais a nossa realidade, a nossa contemporaneidade. Os psicólogos vão ficar ricos! Essa sociedade exige um padrão; e atrás dessa interface, dessa imagem consolidada que os aparelhos midiáticos bombardeiam incessantemente sobre os nossos  olhos, o Sísifo moderno rola sem cessar a sua pedra, tentando se adequar. Ele não pode parar porque estamos na ditadura do eu sou melhor. Eu devo ser melhor que meu companheiro dentro da empresa, mostrar resultados – que provavelmente já estarão obsoletos no momento seguinte. Porque na ditadura do eu sou melhor a fábrica não pode parar. Ela produz o que não precisamos, e compramos, porque o meu vizinho já comprou e se eu não comprar não estarei mais em evidência. E você tem que ser melhor que seus pais. Você tem que ser melhor que você. (Olha para alguém da platéia) Você compartilha seu aprendizado com ela? (aponta para outra pessoa) Louca! Não compartilhe seu conhecimento com ela porque, lá fora, no mercado de trabalho, ela pode roubar seus pacientes. Não pare nunca, nem quando você for podre de rica, porque de repente a Rússia decide não pagar a dívida externa dela e todo dinheiro que você tinha na bolsa de valores esvaí-se pelo esgoto. O mercado é uma largata voraz. Quem está em cima, de repente está em baixo. É de embrulhar o estômago. O Sísifo moderno está preso a sua rotina enfadonha, tentando sobreviver! E você que não tem dinheiro na bolsa, não pense que está livre. Porque você não está. Também tem a perder com o calote russo, porque esse gesto vai falir a fábrica de geladeiras onde você trabalha e você não vai ter como manter as suas despesas. Os seus filhos vão ter que sair da escola que você pagava a tanto custo. E você vai perder o status. Você não vai poder mais dar-lhes roupa nova. Não vai poder manter a interface, e os outros coleguinhas vão começar a esnobá-los. Eles vão ser os últimos de quem os amigos vão lembrar. Essa será a sua vida agora. Mas você não pode procurar um psicólogo porque você não tem dinheiro. E mesmo que você diga foda-se, e se encha de cachaça, mesmo assim, vão dizer coisas que vão moer seus pensamentos até te enlouquecer. Essa é a nossa realidade. A nossa contemporaneidade.
(O narrador-personagem muda de tom e começa a narrar o mito de Sísifo.)

Sísifo era o grande rei de Corinto. Um dia, andando pelos jardins do seu palácio, viu Zeus, o deus, senhor do Olimpo, em uma de suas peripécias amorosas, raptar Hegina – filha do rio Asopo, outro ser da mitologia grega. Sísifo era um homem ardiloso e logo viu que poderia tirar proveito dessa situação, guardou esse fato para si até que o pai de Hegina viesse procurá-lo.
_ Sísifo você viu a minha linda filha Hegina? Eu já a procurei tanto, mas ainda não a encontrei. Perguntou a Sísifo o Rio Asopo.
_ Sua filha foi raptada. Respondeu Sísifo esperando a reação do outro.
_ Diga-me por quem, você viu, grande Rei de Corinto.
_ Não posso dizer, a não ser que você traga água em abundância para Corinto.
E imediatamente o rio Asopo trouxe água para a cidade de Sísifo. Então, Sísifo o contou que fora Zeus o raptor de Hegina. O Rio Asopo rapidamente deslocou o curso das suas águas a procura do lugar em que Zeus estava dando amor a Hegina. Mas Zeus enfureceu-se e repeliu Asopo com suas setas poderosas, obrigando-o a revelar quem o havia delatado. Zeus ordenou a seu irmão Hades, deus dos infernos _ onde as almas condenadas por suas más ações são castigadas no Tártaro e as boas almas gozam o benefício nos campos Elísios. Hades enviou Tánatos, a morte, para aprisionar Sísifo em sua casa. Assim Tánatos foi até Corinto, mas outra vez Sísifo utilizou-se da sua inteligência para enganar Tánatos e prendê-lo nas dependências do seu palácio. E por muito tempo não houve morte na terra. Depois de muito tempo decorrido, Zeus, sabendo disso, ordena a Sísifo que liberte Tánatos. Sísifo sabe que ele será o primeiro a ser abatido por Tánatos quando ele o libertasse. Sísifo diz a sua mulher que quando isso acontecesse que ela não enterrasse seu corpo, deixasse-o sobre a terra. A mulher não entende muito bem o porquê, mas assim o faz. Tánatos aprisiona Sísifo e o leva para o Tártaro. Desde desse dia Sísifo começa a sua lamúria. Que a sua mulher fora uma ingrata porque não enterrara seu corpo, que ele não merecia isso, como gostaria de ter a chance de voltar mais uma vez na terra, para castigá-la, que isso, que aquilo, até que Hades o deixou voltar para terra, mas que ele voltasse assim que tivesse punido a sua mulher. Sísifo nunca pretendeu voltar. E assim fez. Viveu a vida na terra até a velhice utilizando seus ardis para esconder-se de Tánatos. Quando a idade já era avançada e o fim próximo  viu que era inevitável fugir de Tánatos para sempre. E a morte chegou. Hades ao ver Sísifo no Tártaro lembrou-se daquele que o enganara e para prevenir-se que isso acontecesse, novamente, arquitetou um castigo especial para Sísifo. Sísifo  deveria rolar uma pedra para o pico de um monte, quando alcançava o topo a pedra sobrepesava e rolava para baixo. Sísifo retomava a sua tarefa em ininterrupto eternamente.

(O narrador torna a mudar de tom e conclui)
 
Sísifo enquanto vivo valorizou a vida em oposição à morte. E a rotina sem propósito sem um fim premeditado, que sintetize o significado da vida, é vã. É o arquétipo do castigo imposto ao rei Sísifo por Hades. A pedra sempre rolará sobre a cabeça do Sísifo moderno que não compreender dentro de sua rotina a reflexão sobre a finalidade e a necessidade para se chegar a um fim. Porque da rotina, propriamente dita, ninguém pode se libertar. É preciso adquirir consciência, senão a rotina em vez de chegar à conclusão de um objetivo, terminar um curso de psicologia, por exemplo, tornar-se-á a própria morte. A vida só haverá sentido se ela tiver consciência que está viva, de que qualquer freio à mudança a deixará presa dentro de um circuito inalterável. O mito de Sísifo.
Sérgio Caldeira
Enviado por Sérgio Caldeira em 30/12/2010
Reeditado em 17/05/2011
Código do texto: T2700069

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Sobre o autor
Sérgio Caldeira
Itapecerica da Serra - São Paulo - Brasil
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