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A palavra em transe

A PALAVRA EM TRANSE

Encontrar a palavra certa nunca é confortável, é sempre um ato solitário, vagaroso, porém insubstituível aos que desejam produzir bons textos, em especial, no novo cenário em que vivemos - poluído de imagens.
Se de fato como sustentava Bertold Brecht a única finalidade da ciência está em aliviar a miséria da existência humana, ainda assim serão palavras que funcionarão como bálsamo.
Já Albert Camus observou certa vez, com razão, que denominar incorretamente alguma coisa aumenta o grau de infelicidade no mundo. Analogamente, pode-se dizer; com absoluta segurança, que a errônea escolha de uma imagem compromete qualquer cenário.
Imagens substituem palavras. Palavras substituem imagens. Porém o verbo que as une institui o imemorável. Quanto às imagens, sabemos que nunca conseguimos ver tudo e resta saber quem esta vendo mais. Talvez, resida aqui a tarefa ímpar aos incansáveis professores que caminham pelo planeta.
É pela palavra, agora acompanhada de imagens, que vimos a multiplicação das coisas; a mesma ironia mordaz rindo das vaidades arrogantes dos literatos da moda; a mesma razão apaixonada perguntando-se, todo o tempo, se os homens, algum dia, terão tempo, dignidade e saber para se tornarem de fato seres humanos.
A imagem retratada no teto da Capela Cistina fala por si só, assim como, a que repousa na entrada da Academia Brasileira de Letras, que reproduz um texto completo aos que forem legados o ofício da pena.
Palavras e imagens são inseparáveis, a menor e mais insignificante inscrição (no visor, no quadro ou na lousa) formará uma imagem. Nos escritos que se tornaram clássicos, ao contrário do que se imagina conheceremos ou identificaremos as marcas de determinado autor não pelas palavras que ele usa e sim por aquelas ausentes em seus textos.
Os mestres sabem que a palavra prevalecerá, pois aquilo que está visível, manifesto, tem sempre o poder de sombrear aquilo que está latente; não nos esqueçamos que uma lente bem focada é capaz de denunciar ou de criar ilusões de ótica, as quais nos cabem elucidar.
Nessa cruzada diuturna pela palavra universal, homens e mulheres continuam lançando sobre a Terra, em especial na fase escolar, sementes de sensatez e esperança que não tardam a germinar, pois a centeia divina que habita no coração dos homens sempre haverá de prevalecer, resgatando-os das trevas da discórdia para nos trazer de volta à luz para a qual foram criados.
A insubstituível tarefa do professor é acelerar para que as palavras não tardem em se transformar em atos, e as idéias e projetos, em realizações. Palavras e imagens conseguem anunciar e denunciar, causar hospitalidade e hostilidade, enfrentando às vezes algo completamente novo e desconhecido, ainda que sem explicação, mas não necessariamente inexplicável.
A escritora Hilda Hist nos legou por palavras um pouco daquilo que o grande cineasta baiano Glauber Rocha, a quem me socorro no título destes escritos, para gerar tudo aquilo que palavras e imagens sempre traduzirão os feitos humanos, ou seja, “Mas seja onde for, o ser humano é sempre o mesmo: frágil, pequeno, sofrido e desamparado, um nada pensante diante de um Universo assustador”.
Por palavras, atualmente na era da imagem, a mesma fragilidade humana é passada de geração a geração. Somos vítimas de medos irracionais e preconceitos. Alguns podem achar que este é um julgamento pequeno em um lugar pequeno, mas não é. De vez em quando, em algum lugar do mundo a humanidade vai a julgamento quanto à integridade e à decência. Daí que alguns são chamados a fazerem o relatório da raça humana, cuja conclusão é sempre semelhante: apontando; mais luz, e mais luz.
O lúcido professor Miguel Reale, quando Reitor da Universidade de São Paulo, foi feliz ao cravar em seu coração da Praça do Relógio a frase “No universo da cultura o centro está em toda parte”, esta reflexão nos faz compreender que neste início de século, a palavra na era da imagem assume relevância incontestável e está em toda parte. Somente o uso inteligente, prudente e sábio de palavras e imagens conseguirão ligar o que cura com o que fere.


Ronilson de Souza Luiz
Enviado por Ronilson de Souza Luiz em 11/11/2006
Código do texto: T288922
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Sobre o autor
Ronilson de Souza Luiz
São Paulo - São Paulo - Brasil, 46 anos
26 textos (2972 leituras)
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Ronilson de Souza Luiz