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"Era tarde para morrer "

Era tarde para morrer – “pensava  enquanto  mastigava um pouco de pão ressequido”. Finalmente tinha morta a vida e  seu  estado era de uma penúria lastimável. Que tinha nome tudo o fazia para recordar, e aceitar a culpa, como sendo sua, era uma  obrigatoriedade.
Porém estava velho, cansado e seu corpo, sempre tão vazio de  tudo, movia-se qual autómato por entre o cimento do concreto e o paralelepípedo dos olhos dos outros – negros corvos de uma sociedade corrupta  e castrante.
(“Apercebera-se de como fazia frio lá fora, na rua, quando dera o rosto ao vento e a brisa gélida entrara-lhe olhos dentro”).
”Quão longe vai o homem em sua perdição…” seria a  antecâmara da fuga de sua vida, e  assim compenetrado ia e lia, os subtítulos do seu próprio medo, assentes no  pó do soalho, no qual  rastejava ainda o seu sentido mais apurado.
Submetendo cigarro após cigarro, tremura por sensações, pensamentos por indigitações era o fumo o grande agente participativo de tamanha poluição e fácil é o esquecimento ante o sufoco sugerido. Ah! Não pensar em nada, seria possível?! “ Exclamou de repente.” Não, não era. “Finalizou  entreolhando-se,  censurando o brusco movimento  de sua mão.” Não  pensar  em nada é pensar em tudo, duas  vezes. “Concluiu  de  encontro ao peito  da porta, baque surdo da madeira cedendo”.

-“Engole comprimido  atrás de comprimido e consome-se  por inteiro, num frenesim desesperado,
Cá e lá  na cama ou  no chão, pela cura restabelecida!”

Jorge Humberto
15/12/05
Jorge Humberto
Enviado por Jorge Humberto em 12/11/2006
Código do texto: T289081
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Sobre o autor
Jorge Humberto
Portugal, 50 anos
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