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VÉSPERA

Dias distraídos. O tempo atropela os instantes e corre nos trilhos das tantas partidas. Ouso corromper as estações e caminhar em pedras labirínticas. No beco acaricio as paredes aveludadas pelo musgo ou sinto penetrar-me com a poeira de um tardio encontro. Nos largos observo a vida se abrir das janelas, em monumentos, luzes e vias... Recolho as douradas folhas espalhadas no chão, as uvas secas, os frutos das oliveiras, os perfumes, os sabores... Percorro as ruas de Santar e encontro as desfolhadas faixas de vida, quase ouço as ladainhas...

Lanço o olhar para as ruas anoitecidas em chuva no Porto (por ironia bebo a última taça do vinho branco seco "Planalto" da região do Douro no Café Guarany). Espelho o reflexo da lucidez dos versos umedecidos com o luso vinho, do gosto do bacalhau a resgatar o sal dos mares arqueológicos, da alegria de João Videira Santos a rabiscar o novo poema ou a aprisionar o meu sorriso nas torres seculares, do brilho dos olhos de Teresa, das lágrimas de António na estação de Nelas, do canto compassado das mulheres cerradas no luto no Largo da Misericórdia, do pranto contido no comboio, das igrejas onde deitei minhas orações sem saber rezar, dos portais, das ruelas, dos rios, das praias, da minha sombra tímida...

Sorrio a alegria dos dias e deixo as lágrimas em tonéis de outonais carvalhos para, distante, provar o vinho da despedida.

Saudade...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 15/11/2006
Reeditado em 21/11/2006
Código do texto: T292274
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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