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SÓ ME INTERESSA SER BRASILEIRO

Interessa-me ser brasileiro, mesmo com todos os erros, o PT extrapolando e todos os que pisaram na bola antes e essa fera toda que nos antecedeu: império, salafrários, degredados – todos purificados nestas águas salgadas e tropicais - os que sangraram flechados e foram comidos corpo e alma e são sal de um terra que me encanta e resiste a todos os desmandos, enquanto seu povo se forma e se prepara pra assumir o comando coletivo de um país altivo ativo vivo dinâmico que espero, olhando tudo do monte ou no meio da turba, botando fogo, cutucando com meu bardo, com a palavra quente.

Interessa-me ser brasileiro, escrevendo errado, tropeçando na gramática, na injustiça, corrupção e preconceito. Eu sei que o meu brasileiro transcende a isso e que o povo na sua sacra mistura é mais que tudo, mais que o podre que é pouco, mas exala seu cheiro tétrico na sala central. O caldo da nossa cultura é uma seiva que se purifica por si, traz na essência toda a ira, revolta contra os renitentes do desconcerto, mas se torna no destilar do tempo alimento para nossa ação. Por si só o povo redime e separa os detritos, os aflitos, os ditadores e otário, o que não entendem de como se faz uma nação. Desse rito resulta na força do grito e explode por hora na música, literatura, dança e, quiçá, na universidade e logo na ciência. Tudo o que me penetra, areja minha mente. Vejo que a alegria não se ensina na faculdade, mas todos tem o direito de ir lá balançar a roseira do ensino.

Interessa-me muito esse brasileiro, redemoinho de possibilidades; essa espiral de vontades e desejo, mesmo que com todos os dissabores, detratores, ditadores e ladrões. Esse ensejo de luta e resistência, de gente que faz amor no barranco da área de risco e balança o barraco e logo põe no mundo seres lindos, muitos dos quais nosso governo ainda rejeita, despreza e nem dá uma bola pra eles chutarem, nem campo para seu lazer, nem água para sua saúde, os deixa rude, pelos cantos da cidade, mesmo assim quase todos, a maioria se torna gente de bem.

No meu brasileiro cabem todos: até os indesejados, anticorpos desse sistema nos ensina com vida, com sua negação e aceitação. Para todos entenderem que se anda é para frente é duro, há dispersão, dão-se tiros a ermo, matam e morrem entre si. É assim que se dá, poderia ser mais rápido, eu sei, mas se é esse destino, se tem que ser o certo pelo erro... Vejo que os judeus andaram 40 anos no deserto, no caminho da terra prometida, só para que uma geração se fosse e a nova chegasse do outro lado do novo sem vícios. Há que se gastar povo, vida nesta aflita ida. É assim que se anda, pois nada dá certo só com o certo, com o acerto, precisa-se da noite e do dia. Só com brancos não se faz o batuque e nem é só negra a feijoada, essa sopa de variedades única, onde estão dentro, o índio, o português e o negro, na base.

Nesse brasileiro cabem todos: os radicais e os libertários, o malandro e o otário, o assalariado e o jogador, a dor e o amor. Mesmo o estrangeiro cabe no brasileiro, que por si só é antropofágico desde o começo: Come o inimigo para absorver seu espírito e rejeita o osso da manipulação, só quer o que é bom, o resto joga fora. Loiros e pretos e ruivos são raízes do nosso destino. É isso que penso e mais um pouco, que não consegui expressa neste momento, mas acho que já está de bom tamanho.
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 24/11/2006
Reeditado em 24/11/2006
Código do texto: T299863

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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