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Agora Vou Falar de Amor !

A gente devia amar o outro sem grandes formalidades.
Sem desvios ou sondagens. Sem exames de personalidade.
Sem jogos extenuantes, artimanhas ou premeditações.

Sem preconceitos ou trâmites sociais. Sem hipocrisia.

Nunca fazer perguntas tolas, ou usar frases feitas.
Abandonar meias palavras que devolvem meias respostas.
E nunca fazer-se importante demais.

Esse ritual não leva a nada. Minto.
Leva a um prévio vazio das coisas inacabadas.
Ou das que se acabam sem sequer o privilégio de começar.

Perde-se um tempo precioso nessa busca de segurança
e vagas garantias. Nessa necessidade absurda de querer
saber onde se vai pisar. De evitar areias movediças.

E roda-se tanto nesse carrossel duvidoso e terrível, que
o outro termina por cansar.

De nossas inseguranças, dos medos infantis, de tudo o que não
se decide no momento exato. Dos protocolos banais.

Isso causa tanto tédio que o outro vai embora, e sem aviso.

No fundo mesmo, o amor não passa de um contrato de risco.
De uma aposta de cassino. Todas as fichas na intuição.
Um tiro no escuro. Um mergulho num lago sombrio.
Uma chance para o destino. A aprendizagem do errar-acertar.

A gente devia experimentar isso. Ser presente, simplesmente.
Ser humilde para aprender a amar em amplitude.
Estar disponível sempre, mesmo que isso destrua nossa agenda
de compromissos. Doar nosso tempo para o outro.
E depois trabalhar dobrado. E contente.

A gente devia fechar os olhos e se lançar no abismo do outro
sem vacilações. Confiando no nosso instinto.
Saber que o coração aos saltos não é acrobata. É um alerta
preciso. E que a larga euforia que o outro nos causa não é
coisa a toa. É a sensação mais bonita.

A gente precisa agir rápido. Ter atitude e firmeza.
Não deixar o outro escapar por conta da nossa mediocridade.
Fazer qualquer loucura somente para estar junto.
E depois pagar qualquer preço que a vida cobre. Sem reclamar.

A gente devia viver de imediato as possibilidades.
Resolver o que fosse complexo mais tarde.
Deixar florir a felicidade, reluzente.

Talvez esse outro seja único, um raro e valioso exemplar.
Nossa pedra filosofal, nosso Graal humano.
Quem sabe até, a nossa melhor parte. Um vapor de arte.
Que vamos procurar pelo resto da vida, trôpegos, obtusos,
na ressaca doída do não mais encontrar.

Sabemos que perdemos a chance.
Mas a gente sobrevive, afinal.
Cola na face um sorriso farsante.
Apaga o sabor da vida.
Constrói um mundo sem porta.
E pratica uma existência vazia.
Desbotada, roída.
Assim, meio torta...


Claudia Gadini
09/10/05

Claudia Gadini
Enviado por Claudia Gadini em 25/11/2006
Código do texto: T300983

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Sobre a autora
Claudia Gadini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Claudia Gadini