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BALADA DE UM MORTO VIVO

 

 

+ Testamento aos vivos.

 

 

 

Quando eu finalmente morrer:

Façam-me um bonito velório.

Sem rezas, sem choros, mas com muitas flores.

Somente a mulher amada que foi amada,

Terá direito, se quiser, ao último pranto.

Não quero esses falsos pêsames ao meu redor.

Quero irreverência e muita poesia declamada.

Não atem os meus pés e nem as minhas mãos,

Pois, para onde eu vou todos os nós se desatam.

Deixem o meu rosto livre.

Sem aquele pano amarrado,

Sufocando escondido o meu último sorriso.

Aspersão de água benta e incenso, nem pensar.

Quero festa, alegria, poemas e muito riso.

Vocês não insistam com a água, eu posso me resfriar.

Apaguem todos os círios e todas as velas,

Dêem-nas a um pobre vivente para poder enxergar.

Eu era cego e me negaram uma nesga de luz.

Não ponham na minha retaguarda, atrás de mim,

E sim, a minha frente, bem no alto,

Aquele cruzeiro de bronze, a “Santa Cruz”.

Pois, foi por ele que nasci e vou morrer.

Acreditem! Não é média com o Sr. Jesus.

Quando fizer silêncio na alta madrugada,

Chamem a mulher que ontem amei tanto.

Direi um poema em silêncio para a desamparada.

E ela entenderá quão inútil é o pranto.

Levem-me direto ao ignoto pélago.

O Padre não encomendará a minha alma,

Cobrando dos parentes o metal desvalorizado.

Digam a ele que há muito já pertenço a Deus.

E, esse meu Deus, não é venal e nem safado.

Não precisam pagar, portanto,

A inevitável viagem aos reinos seus.

Não me joguem aqueles torrões de barro.

Fazem um barulho fúnebre e semi-abafado.

Joguem-me folhas, ramos, flores e pétalas.

Bastante papel em branco e lápis bem apontado,

Pois, escreverei poemas invisíveis nas nuvens,

E ela saberá que permaneço o seu poeta,

Entre as estrelas que bem sei admirar.

Ah! Ia me esquecendo!

Não usem argamassa forte em minha tumba.

Pela mulher amada ainda posso ressuscitar.

Assim espero que seja feito. Ouviram?

 

Eráclito.

 

Eráclito Alírio da silveira
Enviado por Eráclito Alírio da silveira em 26/11/2006
Código do texto: T301569
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Sobre o autor
Eráclito Alírio da silveira
Imaruí - Santa Catarina - Brasil, 74 anos
889 textos (135241 leituras)
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Eráclito Alírio da silveira