Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Solilóquio Pseudo-ontológico(comentário de uma folha)

       Com quem posso falar. A quem vou dizer que esta folha aterrissou em mim; que ela não pertence a nenhuma destas árvores? Exceto contigo pensamento, mudo pensamento que gesticulas feito um cego e nada dizes. Para quem vou dizer que ela veio até mim? Contrariando a monção do norte ela parou aqui sobre minhas pernas e de onde veio? Assim tão verde, nesse outono frígido! Ou será que todas as folhas que caem no outono são verdes e eu nunca percebi! Será que isso é outono mesmo?
Ela é comprida e afilada e verdinha, com microscópicos risquinhos transversais... e não pertence a nenhuma das árvores daqui.
- Oh, seu João, de que planta é essa folha?
Seu João com o olhar perscrutador de quem entende de tudo, inclusive de plantas, posto ser a um decênio e meio o jardineiro que todas as manhãs abre a torneira que deixa escapar aquele líquido clorificado (que os citadinos insistem em chamar de água), revirou a folha aproximando-a da vista, sorrindo, sentenciou:
- Isso aqui é uma folha de azeitona.
Tomei a folha da mão de seu João, apressadamente, e contemplei-a à luz de uma réstia de luz e verifiquei que realmente era uma folha de azeitona, uma roliça folha de azeitona, bem verdinha, vinda não se sabe de onde!
Nunca acreditei em acaso. Francisco estava de malas prontas para viajar, ontem, quando de repente recebeu um telefonema do patrão e teve de adiar a viagem. O ônibus virou e o telejornal noticiou a tragédia, nunca dantes acontecida nesta cidade. Francisco, furioso, como um cachorro numa corrente, foi até a empresa e não conseguindo resolver um problema lá, bateu boca com o patrão e foi demitido, mas não perdeu a vida. Deve haver uma explicação para essa folha ter vindo até mim... faz duas semanas que não jogo no bicho, quem sabe hoje não é o dia. Porém, desta semana, este foi o único dia que não consegui juntar dinheiro para tomar uma pinga! Que saco!
Mas eu não estou sozinho. Das outras vezes bebia para desligar o pensamento, e, agora, quero me manter atento, mirando e remirando essa folha, minha única companhia, nesta manhã, que nem seu João, entendedor, de todas as plantas, soube especificar se é de outono ou de inverno. Na escola aprendi que a estação da queda das folhas é o outono, no entanto, as demais árvores da praça continuam com suas folhas e somente esta aqui caiu, contrariando a escola e esses autores burros dos livros de Ciências.

Aracati-Ce., 31 de março de 2006.

André Breton

André Breton
Enviado por André Breton em 27/11/2006
Código do texto: T302641

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor e o link para a obra original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
André Breton
Aracati - Ceará - Brasil, 31 anos
60 textos (11792 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 07:13)
André Breton