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PORTO SEGURO

PORTO SEGURO.





Naveguei todos os mares da minha vida, enfrentei tempestades encapeladas, correntezas vorazes que cortavam famintas a quilha da minha doce nave. Raros foram os momentos de calmaria e bonança nessa arte de navegar.
Enquanto o mar bravio bramia e as ondas crispadas se atracavam em duelo mortífero com os rochedos, passava intrépido e seguro o meu paquete navegador, rasgando os ventos contrários, enfunando a vela mestra, rumo a outros mares nunca dantes navegados.
E assim, deslizava de onda em onda, a sotavento, de sextante apontado para as estrelas que ao longe eu as via e, impávido, fazia velas ao norte do meu destino, rangendo o velho madeirame, açoitado pelas lufadas tempestivas que sopravam do setentrião do meu ser. Assim seguia o meu paquete.
Caía à noite sobre o mar e a minha doce nave transmudava-se em fantasma aquático, movente, solitária e rápida, parecia querer engolir o oceano que já se fazia em mim.
Do meu camarote do alto do convés de popa, eu tinha por companheiros nessa desdita, o vigia do mastro mestre no alto da gávea e os cantares sedutores das sereias que melodiavam em mim, canções idílicas marinhas premidas pela solidão com um enlevo para todos os marinheiros abandonados.
Todo o amanhecer era um reviver quando, uma alvorada vermelha emergia do mar, rasgando no horizonte perdido, um sol rubro, uma verdadeira brasa atlântica aquecendo os nossos corações.
As cartas geográficas, a bússola e a mão firme e determinada ao timão, davam  tranqüilidade segura de estarmos navegando no rumo certo.
Sempre me direcionei ao norte magnético, pois sentia a necessidade precognitiva de uma atração perturbante que se desprendia de uma estrela postada, logo ali, a mil milhas de distância.
Quarenta dias e quarenta noites foram navegadas em alto mar e, nesses dias e nessas noites, as manhãs eram sempre umas mesmices.
As tardes eram modorrentas, apenas uma nuvenzinha solitária sesteava no infinito, (era a esperança) e o crepúsculo rotineiro antevia as noites vestidas em solidão e o céu se pipocava de estrelas, as únicas coisas visíveis, o resto era somente um rumor vazio e um excitamento de insegurança na alma.
Numa certa madrugada na alvorada da minha vida, quase se fazendo dia, eu avistei à minha frente uma enseada serpenteada entre as montanhas matutinas, ainda azuladas pelo frio da madrugada, notava-se que em suas rastejantes vegetações, gotejavam em brilhos cristalinos o orvalho. Pérola da manhã, dando um brilho especial à natureza que acabara de acordar.
Bem acima da maior montanha pairava uma reluzente estrela de grandeza “Alfa”, cintilando de modo intermitente o código Morse ao infinito da minha alma confusa.
Fiz com todos os cuidados atracar o paquete, agora, já tranqüilo de quilha afundada. Assim, ele brincava com as gaivotas meninas que alvissareiras em plumagens brancas, davam-me as boas vindas em revoadas sinuosas e elegantes, grasnando alto e acima do mastro principal.
Terminada a tarefa de atracação, soa o sino de proa, num tangido alegre e esperado. É chegada a hora dos marujos fazerem-se terra firme. Saborear uma bebida e se fartarem na comida quente e nos prazeres de todos os portos.
Fico no meu camarote para os devidos assentamentos no diário de bordo, um trabalho maçante, mas necessário e muito útil à vida náutica.
Depois de historiar as ocorrências de todo o trajeto de quarenta dias e quarenta noites, com todos os pormenores técnicos pertinentes à vida marinha, eu escrevo automaticamente na página seguinte, um poemeto dedicado àquela estrela que acabara de conhecer pela manhã.
E assim, escrevi: “Aldebarã estrela minha, tu me apontarás a Senhora Minha que um dia hei de amar”.
Agora, permaneço atracado nesse porto até hoje e, a minha doce nave, a cada dia, se ata com maior segurança e equilíbrio na âncora que a mantém.
E o meu diário de bordo que era para assentar detalhes técnicos de viagens, passou a ser um diário poético, que conta e canta a história idílica de uma estrela fixa sobre a montanha que vejo todas as noites no meu PC.
Que já de tão próxima, ilumina o meu paquete navegador: A MINHA DOCE NAVE agora passou a se chamar Glauci, uma estrela de grandeza Alfa que iluminará doravante o meu destino.


Eráclito Alírio









Eráclito Alírio da silveira
Enviado por Eráclito Alírio da silveira em 02/12/2006
Código do texto: T307418
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Sobre o autor
Eráclito Alírio da silveira
Imaruí - Santa Catarina - Brasil, 75 anos
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Eráclito Alírio da silveira