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O Menino

           Já nascera assim, o menino. Coração enorme. Ele já nascera assim, o menino, transformando-se.

           Era um menino magrinho, aquele. Pele alva como o marfim, olhos fundos e vivos, que gritavam. Que gritavam. Os olhos do menino gritavam um grito silencioso, que se podia dizer que era um grito inumano de tanta humanidade que havia. E de tudo mais que havia. Mas ninguém ouvia.

            O menino era como uma flor rara, uma daquelas flores raras e selvagens, cuja raridade reside justamente no fato de serem simples, e cuja selvageria se manifesta na certeza de não precisar de espinhos para se defender. Ele queria mesmo era desabrochar. Desabrochava nas horas mais impróprias. Na cadeira do dentista, quando achava por bem rir. No velório da tia, quando seus olhos não derramaram lágrimas, e deu-lhe um beijo na fronte já fria, ela já toda morta, e ficou feliz por ter o sangue tão quente. E se alegrou com a respiração, tão banal, tão perfeita, tão anônima. Tão vida.

             Desabrochava no meio-fio em qualquer praça, em qualquer rua. Ali, sentado, a sua comunhão silenciosa era com a fileira de formigas. Tudo era ar e borboletas. Tudo era delicioso. Tudo tinha gosto, pois por todos os sentidos o que ele sentia era o gosto das coisas, porque tudo era vivo, e o que é vivo tem gosto, mesmo sem gosto. O gosto do que via, o gosto do que respirava. O gosto do dia e o gosto do orvalho. O gosto da dor e do amor.

              Sim, o gosto do amor. O menino já nascera assim, amando. O menino amava, e amava. Simples assim. E era como um rio. Nunca pensara na correnteza.

               Amava. Ele não sabia completar as frases quando perguntavam-no o que ele amava. Ele não entendia. Achava que amar era assim mesmo, amar, coisa tão louca e tão simples. Para não deixar de responder, dizia: tudo. Bola, borboleta, pião. Mãe, árvore e regato. O que era limpo, o que era sujo. Tudo.

               Como eu já disse, o menino já nascera assim, coitado, com o coração grande. Dizia que era grande pra caber tudo e todos. Seus seis bilhões de parentes. Sua pequena família.

               E chorava. O menino também chorava.

               Às vezes à noite, quando tudo está mudo e só ele escuta, ele me disse, ele chorava. O menino chorava uma lágrima leve, como pérola dissolvida. Uma lágrima que sentia as dores do mundo. A cabeça pesada ao fim do dia e o corpo ébrio de nascimentos, tudo fundido na leveza do caleidoscópio que era a sua lágrima. Chorava as mortes mudas das explosões. As guerras, as armas. Era, às vezes como natimorto, outras como aço de espada.

               Mas era como uma flor rara, o menino. E amava tudo. E sentia tudo. E tudo era demais pro coração dele, coitado. O menino já nascera assim, com o coração grande.

               Desabrochava na madrugada, quando ar estava frio e as noites eram longas, sonhando com o nascer do dia, pensando nos diálogos silenciosos com os beija-flores, tão importantes. Instalado no limiar do instante, esquecia. E dormia leve com seus pés de Ícaro, e sonhava vôos com o Pégasus. E tinha um sorriso também leve enquanto dormia. O menino que não era prático, que iria ser filósofo quando crescesse. Ou poeta. Ou astronauta, porque diziam que o menino vivia com a cabeça na lua.

               O menino não era prático. Ele sabia disso. E ele ria. E vocês não podem imaginar o quanto ele era bonito quando ria.

               Escrevo essas palavras porque tenho saudade do menino. Nunca mais o vi andando por aí. A rua está vazia, e já não há mais flores no meio fio. Parece que sonhei, e quando acordei tudo estava diferente. O menino desaparecera como surgira. Um pouso de pássaro e a cascata de ar que sai de seu bico. Já não há mais flores no meio-fio.

               Parece que foi ontem, mas foi há muito tempo...

              Certas horas do dia, quando caminho solitário pelas ruas do centro da cidade, e vejo o pôr-do-sol por entre os prédios, e já não há mais diferença entre eu e o vento do mar, eu me lembro do menino.

               O menino que surgia montado no primeiro raio de sol, nas primeiras horas das flores, quando o vento é fresco e bom, como ele o é desde seus tempos imemoriais. O pequeno anti-Deus irresponsável e risonho. O menino que era a vida. A vida que era ele.

                Algumas pessoas que também conheceram o menino dizem que ele se mudou para o Pará, e porque a situação financeira de seus pais piorara, eles tiveram que se mudar. Seus amiguinhos dizem que ele se cansou de tudo e partiu na cauda de um cometa. Um cometa que ele mesmo criara, com a calda de chocolate e todinho feito de pipoca doce. Antes de partir, leu uma poesia para cada um dos seus amigos. Eles acharam legal, e depois foram jogar bola.

                 Algumas pessoas dizem que o menino passara um tempo internado e que morrera alguns dias depois. Os médicos disseram que o menino era portador do Mal de Chagas.

                 O pai dizia que o menino já nascera assim mesmo, coração mole. Coração grande. Irrevelado.
Leonardo Soares
Enviado por Leonardo Soares em 02/12/2006
Código do texto: T308031
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Sobre o autor
Leonardo Soares
Fortaleza - Ceará - Brasil, 32 anos
139 textos (41245 leituras)
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Leonardo Soares