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Das viagens



           Acordei hoje de manhã em uma casa em Jardim Paulista, cidade adjacente ao Recife, no belíssimo estado de Pernambuco. Levantei-me, despedi-me da família que tão bem me acolheu, e a mãe de meu amigo tinha lágrimas nos olhos quando saí pela porta para sabe Deus quando voltar lá. Foi uma despedida com o sabor de “quero mais”, mas sem olhar para trás, sob pena de transformação de toda a minha felicidade em uma horrorosa estátua de sal-dade.. Fazia tempo que eu não me sentia, em uma mesma situação, amigo e filho, querido, cuidado, protegido.

            Durante essa mesma manhã, dirigi-me à UFPE. Lá me encontrei com Janaína. Janaína é uma dessas pessoas difíceis de serem classificadas, em um primeiro momento (e acho que em um segundo também), em qualquer categoria rígida. Ela me pareceu antes como uma pequena flor delicada e intensa que brotava ali, na minha frente, em pleno solo acadêmico pernambucano, cuja voz macia e suave apenas deixava entrever o som das ondas que rebentam dentro dela. E eu só pude ficar feliz de saber que pessoas assim existem. Falamos de Rilke e Drummond, e eu estou lendo o livro que ela mais gosta. E o meu corpo estremeceu, de tanta vida que fluía em torrente silenciosa.

             Questões práticas- aeroporto, bagagem, vozes metálicas, sorrisos comprados, dor nos ouvidos, a pressão baixando e o avião subindo. Nuvens, nuvens, nuvens....tudo lá de cima é pequenino e extrapola a minúscula janela da aeronave. Nenhuma conversa e, em um piscar de olhos, os meus rastros nos caminhos da cidade de Fortaleza eram novamente rememorados. Os velhos hábitos, a segurança do saber mover-se. A reterritorialização no meu paraíso artificial. E de repente achei tudo mais bonito.

               Meu pai e meu irmão me esperavam. Achei meu pai ainda mais magro, os cabelos brancos como nunca outrora houvera visto, e o meu irmão com uma barba excessiva, que não combina com seu rosto. E pensei que a vida dá muitas voltas em uma semana, que ela se desenrola à nossa revelia, sem pedir licença para acontecer. E que tudo muda em questão de segundos, nada sendo igual a si mesmo no instante seguinte.

             E aqui estou eu, escrevendo esse texto, defronte a um computador cuja frialdade inorgânica já não me afeta mais. Num impulso irrefreável, escrevo no frenesi de quem tem pressa de construir um corpo, uma escrita-corpo, para que ele seja olhado, apreciado, lambido, desprezado, acariciado, vivido. Escrevo com a lascividade de quem construiu uma ligação subterrânea entre o desejo e o discurso, não para dizer da vida, mas para que ela esteja entre as linhas, entre a vírgula e a palavra, sorrindo maliciosamente para você que me lê agora.

             Mas isso não é o mais importante nesse momento em que escrevo. O que me deixa em estado de êxtase não-místico, em um estado de leveza súbita e de silenciosa alegria torrencial é, paradoxalmente, a lembrança de que eu, há duas semanas atrás, estava com uma tremenda depressão, daquelas que você tem vontade de nem sair da cama. Um daqueles períodos em que todas as possibilidades parecem ter sucumbido ao despotismo das contingências, muitas vezes frívolas, aviltantes, e todas as cores do arco-íris são meras promessas distantes de um outro mundo.

             Ao desterritorializar-me pelo irrisório período de uma semana, tudo mudou. Minha subjetividade “acordou” novamente. Meu corpo, todo alerta, palmilhando cada situação vivida em busca da maximização de minha potência de existir. O essencial é viver, já dizia Drummond, e todo o meu ser corroborava esta afirmação. A lembrança de Proust também me invade. Ele dizia que viajar não é apenas fundamentalmente mudar de lugar, mas, especialmente, aprender a mudar o olhar.

             O que eu aprendi com tudo isso?

              Difícil sintetizar o vivido em alguma sentença concisa que escape ao lugar-comum de que “viajar é preciso”. Na momentânea falta de criatividade, só me resta fazer uma apologia do nomadismo. Na contramão de alguns pensadores, penso na importância não apenas do nomadismo existencial, aquela errância do pensamento que te faz furar o muro demasiado sólido das significações dominantes, que te leva à construção de novas utopias, de novas “ilhas”, novas máquinas de guerra, prontas a desestabilizar qualquer indício de verdade transcendente, identidade fixa ou essência imutável, mas também na importância do deslocamento físico.

               Andar, conhecer o seu bairro, a sua cidade, os seus territórios familiares, que tu demarcaste com os teus códigos, é importante. Mas se tu puderes, viaje. Saia de tua casa e vá explorar o mundo. Agenciar novas intensidades, conhecer novas pessoas, novas comidas, cheiros e cores. Teste seu corpo na prova da viagem rumo ao desconhecido, durma em locais estranhos, faça novos amigos e descubra o quão longe pode ser um lugar que é, em tese, “bem aí, depois do sinal”.

                 E se retornar for imperativo, volte. Mas esteja atento para seus movimentos, o quão imperceptivelmente eles se modificaram, não são mais os mesmos de antes, ainda que bem parecidos.

                  E se não for pedir demais, volte com outro olhar. Aquele olhar, sereno e intenso, sábio e selvagem, de quem se mostrou para o mundo, saiu de sua aldeia, e voltou com muitas estórias para contar. E descanse, mas só até a próxima viagem
Leonardo Soares
Enviado por Leonardo Soares em 03/12/2006
Código do texto: T308054
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Sobre o autor
Leonardo Soares
Fortaleza - Ceará - Brasil, 32 anos
139 textos (41799 leituras)
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Leonardo Soares