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Costuraram meu coração com linha vagabunda (Lady Averbuck, chupinhei-te)

                    Acontece que está uma puta bagunça na minha cabeça. Acontece que eu estou sentada em frente ao computador, com um pacote de bolachas do lado, tentando escrever algo que preste e não consigo. Acontece que antes eu amava as pessoas demais e isso era lindo, apesar de doloroso, e hoje não amo ninguém e dói muito mais. Acontece que eu tenho inveja até da respiração das pessoas. Acontece que não está acontecendo nada e eu estou bem assim!!! Eu não quero que aconteça nada, eu não quero acordar e estudar e ensaiar e tocar e conhecer pessoas. Acontece que eu não sei o que fazer. Acontece que eu tenho comido muito, muito mesmo, e não sinto culpa. Acontece que eu estou com medo que o antidepressivo faça efeito, mas também estou com medo que volte o desespero, e hoje me caguei de medo porque quase esqueci de tomar o maldito comprimido. Acontece que ele é bendito, embora tenha sido receitado por uma maldita psiquiatra psicanalista freudiana que fede a cigarro e que não liga pros meus sentimentos. Ei, eu chorei na sua sala e você nem se importou, sua vaca! Acontece que eu tenho tesão reprimido. Acontece que eu não quero conhecer ninguém, porque estou com vergonha do que sou. Acontece que eu nem sei quem sou. Quero encher a cara.
Acontece que uma vez eu estava bêbada e quis entregar meu coração pra um garoto lindo que eu tinha acabado de conhecer. Acontece que ele disse que não podia, que é um jeito bonito de dizer que não quer. Acontece que eu dei um abraço nele e desci as escadas com medo de tropeçar, porque eu estava bêbada mesmo. Acontece que esse garoto, que tinha uma blusa de flanela xadrez, vive voltando na minha cabeça. No meio da bagunça. Acontece que nada disso faz sentido, mas um dia ainda vou olhar pra tudo isso que aconteceu e ver a beleza. Vou descer as escadas sem medo, porque vou estar sóbria, e vou entregar meu coração para um garoto ainda mais lindo que me espera lá embaixo. Meu corpo estará cheio de hematomas das porradas que terei tomado, muitas ainda pra acontecer. Mas não vão doer mais. Eu vou amar quem merece e não vai doer, não vai. Acontece que tudo já terá acontecido e eu não vou mais ter medo. Vou olhar a menininha boba, chorando por causa de um tombo e vou falar pra ela que isso passa, que é coisinha besta que acontece, acontece...
Dawn
Enviado por Dawn em 18/07/2005
Código do texto: T35393
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Sobre a autora
Dawn
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
19 textos (978 leituras)
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