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Crescendo nos anos 90 - pte 2

Não quero que ninguém me entenda. Quero ser incompreendida porque assim posso fazer qualquer merda sem me importar. Não quero ninguém dissecando meu cérebro, não quero Freud, Lacan, Jesus Cristo, não quero, eu quero ficar sozinha.
Deixa eu contar, deixa eu só mostrar como dói, mas não é pra você me entender, é só pra doer em você também. Meus pais me levavam pra brincar no shopping. Compravam fichinhas pra eu brincar nos brinquedos. Eu ia... eu até fingia que sorria... eu estava sozinha e as luzes piscando e todo aquele barulho e os meus pais me olhando enquanto eu mergulhava na piscina de bolinhas. Eu não tive irmãos porque minha mãe me teve já velha, e depois que eu nasci ela entrou em depressão. Ela toma remédios até hoje, mas, sinceramente, acho que nem ela mesma acredita que eles ainda façam algum efeito. Tá doendo? Ainda não? Tá bom, eu tenho mais.
No jardim de infância eu era a alegria da garotada. Eles se divertiam horrores me chutando, dando rasteira, batendo. As professorinhas tinham um jeito mais meigo de se divertir... uma vez mijei na calça no parquinho e a tia me pôs de castigo. Passei o recreio todo sentada no cimento, com a calça toda molhada. Elas não entendiam porque eu chorava todo dia e dizia que queria voltar pra minha casa, que queria a minha vó (minha vozinha, minha vozinha que tinha pelanquinhas fofas e eu deitava e me esquentava e ela contava a história do macaquinho... minha mãe neurótica trabalhava o dia todo e eu ficava com minha vó... minha vozinha, que morreu dez anos depois... minha vó que teve câncer no pulmão e que foi embora e deixou um corpo demente e gelado com a gente por mais seis meses). Um dia uma delas falou: “Tá bom, sua vó já tá vindo te buscar”. Fiquei feliz, feliz, mas então ela se aproximou da porta... não era a minha vó, era a diretora sádica que gritou e brigou e me deu medo e eu me encolhi, e eu chorei de novo... vó... vó... Espero que esteja doendo agora.
Em mim dói, todos os dias. Estou tomando remédios, assim como minha mãe. Tento acreditar que eles façam efeito... eu tento, sabe? Eu tento ser alguém, eu tento ser feliz, eu tento colocar meus neurônios pra funcionar, mas tá difícil... passar o dia inteiro babando em frente a uma máquina me parece tão mais simples...
Mas eu continuo tentando... e vai doendo, eu assopro a ferida, eu mordo o travesseiro pra abafar o choro (técnica aprendida na infância), eu volto de manhã pra casa, eu finjo que amo alguém, eu finjo pra mim mesma, eu minto, eu mato. O tempo, as horas, os dias, os anos dessa vida imbecil.
Dawn
Enviado por Dawn em 11/08/2005
Código do texto: T41939
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Sobre a autora
Dawn
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
19 textos (978 leituras)
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