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Onde Tu Não Foste Criança, Não.

Não envelheças onde tu não foste criança. Onde tu não viveste a infância, a juventude, o sonho.
Se tu envelheceres num lugar onde não deixaste tuas marcas de xixi, não mijaste em arco nem foste guri, jamais poderás ter o que contar.
Depois, bem depois, não terás com quem contar se precisares recordar.
E vais precisar. Vais precisar.

Não envelheças onde tu não foste vizinho. Onde tu não freqüentaste escola, não aprendeste a ler e a escrever errado e seres reprovado.
Se tu envelheceres num lugar onde ninguém te viu subindo em árvores, fugindo de um cachorrão, jamais poderás ter o que aumentar.
Depois, bem depois, não terás com quem comentar se precisares exagerar.
E vais precisar. Vais precisar.

Não envelheças onde tu não foste poeta. Onde tu não
cantaste em versos tortos, não sofreste as dores e as glórias de poderes ser um menestrel.
Se tu envelheceres num lugar onde não deixaste muitos amores, tantos de perder a conta, jamais poderás ter o que mentir.
Depois, bem depois, não terás com quem repartir, se precisares te iludir.
E vais precisar.Vais precisar.

Não envelheças onde tu não foste posseiro. Onde tu não tens terra feita, não plantaste as esperanças e as certezas para seres o dono da história.
Se tu envelheceres num lugar onde não deixaste teus primeiros anos servindo de cama, jamais poderás ter onde te deitar. Depois, bem depois, não terás amigos com quem recordar, antes de defuntares, se precisares reviver.
E vais precisar.Vais precisar.
CESAR CABRAL
Enviado por CESAR CABRAL em 24/08/2005
Código do texto: T44870
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
CESAR CABRAL
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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CESAR CABRAL