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rasuras

A confissão ficou grudada no fio.  Morreu.

No princípio parecia que não era nada demais.  Eu estava ali no canto, tonta por um aliciamento etílico que parecia sem maiores complicações à médio prazo.  Um chegar mais perto - coisa de quem só quer pedir um isqueiro emprestado – forneceu a deixa das conversas, aparentemente inocentes sobre assuntos que versavam sobre literatura, teatro e outros dogmas.  Entre os dentes foram surgindo intenções ao ritmo de melodias que brincavam ora tango, ora rock tropicalista.  E assim fomos nos deixando levar ao sabor da noite arbórea, com gosto de morangos em dia de domingo.  Eu sei que, em casa de pobre, morangos são raros.  Então, lá no fundo do meu inconseqüente, já desconfiava, já notava o perigo forçando a tramela para entrar.  Parecia até que não éramos os nós de ontem, o medo e a dúvidas diluídos no tingimento azul de um céu que pingava de estrelas.  Eu não era mais madrugada insone e [urf] aquelas dores no fígado, nem você um recém-liberto do tédio de uma prisão consentida.  Um copo em uma mão, uma mea-culpa em outra.
Fazia pouco, eu havia descoberto que coca-cola e bananas dava uma fermentação indigesta, de um sabor verde-musgo; mas que droga, tanto fazia o que eu comia depois do segundo porre depois das seis. Eram estranhos dias kafkianos onde eu só queria saber de glicose para aplacar a dormência da solidão e das palavras que não saíam.  Agoras elas saem, cachoeiramente.  E sempre depois das duas e quinze.  Da madrugada.
Mas voltando à noite arbórea, senti que ao aproximar das mãos que tremiam os copos,  logo após a sensação de formigamento provocada por numerosos goles de cerveja e vinho, bateu um frio digno de touca e fui me sentindo mais leve.  Medrei um pouco na hora, mas não procurei nenhum abrigo.  Aquela sensação não me era estranha.  Foi então que notei um vento no vazio-peito e, ops, alguma coisa havia pulado do esconderijo seguro dos meus bolsos.  Era minha paz que você carregou para o seu canto, que é muito distante do meu, seja lá onde for.  E mesmo que eu use toda a delicadeza e charme de um dândi, ou que apele a súplicas, preces e outras mandingas, ela não me será devolvida por bem.
Depois que perdi você de vista, foi que o desassossego voltou mais forte, logo após umas três semanas de alegria caramelos-contados em mão de criança de rua, que não sabe o dia em que terá uma outra chance doce na vida.  Ando chorando muito quando penso nisso.  E bebendo demais, sabe.  Que niilismo só combina com cachaça mesmo.  Serei eu um lírico ou apenas mais um babaca romanesco?
Na quarta semana, depois da dúvida doce, veio a certeza amarga da fuga; e é com a ajuda dela que vou fazendo descer o álcool forte desses dias sem você, arrancando à golpes de alabarda a verve que dormia para tentar sobreviver de escrevinhar confissões.  E eu não te vejo mais faz tempo, a intensidade é irrelevante, só faz sentido para mim.  Minha cronologia é baseada no peso do sentido, não no preço vago das horas apáticas.  Só queria dizer que me sinto perdido, à deriva de um amor que não saiu do preâmbulo.
Considerações finais, diagnóstico irredutível:  Os próximos meses parecerão décadas em tempos de guerra.  O fato é que a insônia voltou mais brutal e fria.  Minha saúde vai indo embora com a água da chuva, descendo por escadas sabor de mármore, se atracando com ratos e outros bichos nos desvãos da vida.  Essa noite vou dormir com fome.  Para os dias subseqüentes, interrogações ao léu e saudades abissais.

Ao baú voltarás.
Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 21/09/2005
Reeditado em 18/07/2006
Código do texto: T52448
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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