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Restart

Não sabia bem o que era real. Os pensamentos flutuavam tanto, que de tão leve quase não voltava. Não comia, nem dormia: só sonhava. Acordada é que não estava. Vivia no seu mundo paralelo, que coabitava com as coisas do mundo – de todo mundo. Não ousava exigir mais nada daquilo que não entendia. Não entendia quase nada. Sabia que querer saber era querer demais. Querer saber era um preço muito alto: porque quando se sabe já é tarde demais para voltar. E sabia que nada bom acontece quando não se pode voltar. Sentia-se pequena diante da grandeza do universo. Sentia-se grande, pois era parte do universo. Que esperavam que fizesse? Que soubesse tudo? Sua intuição há tempos falhava. As coisas todas pareciam uma coisa única: tudo o tempo todo era vida – e só. Escrevia poemas mal feitos, que ninguém leria. Cada palavra rasgava a carne: tinha alma, sangue e forma. Achava sentimentalismo escrever assim. É que escrevia de si para si mesma, como um jeito de se saber existindo. Falava de amor de um jeito piegas, desajeitado. Tinha algumas feridas abertas, esquecidas, inflamadas... É que tem amor que é doce, tem amor que é mansinho, tem amor que arrebata, tem amor que é ausência e tem amor que é moribundo.
É que naquele dia, vira um brilho novo, uma cor a mais, um sentido transcendente, que não sabia que havia, mas sentia. Começava a enxergar os pequenos acontecimentos especiais que acontecem todo dia e que por isso mesmo, ninguém vê. Era encantador arregalar os olhos e ver o que sempre esteve ali, tão perto que nunca conseguira ver. Nada mais passaria despercebido dali em diante. Seria isso "o" amor? Não saberia dizer... Importava que estivesse ali, percebendo a vida se mostrar assim, sem roupa. Nua e crua. Sabia agora que a essência das coisas não poderia ser compreendida, porque se assim o fosse, já não seria. Nascera sem saber para quê, nem quando partiria. Não entendia nada do que dizia. E isso era bom...
Ani Lis
Enviado por Ani Lis em 19/06/2017
Código do texto: T6031300
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Ani Lis
Curitiba - Paraná - Brasil, 39 anos
74 textos (985 leituras)
12 áudios (188 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 16/08/17 11:12)
Ani Lis