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As crianças nascem de armários

As palavras nascem sozinhas e vazias como eu. Desenrolam-se a si mesma e no outro, às vezes choram e fazem chorar, parecem cebolas quando descascadas. O intervalo entre elas são esses ácidos abismos. Me descasco e inscrevo sem ter preocupação com a forma ou  estilo, digo, vou sendo, não sei se com pura verdade, mas sinceramente.

O que intento? Tento ser a escrita e não muito mais o que escrevo? Sobre o que escrevo? Não sei o sobre das coisas, sou o de dentro.
Já nem sei o que sou.
Já nem sei mais o que estou dizendo. Clarice dizia isso, eu sei que ela sabia que não sabia o que estava dizendo, será ela sabia o que queria dizer? Mas o que importa? Não importa, não importa saber se se sabe, importa viver. Eu já nãem sei se vivo.

Mas estava a dizer que as crianças nascem de armários. Levanto da cama quase dia, tive a agonia da sede, fui à cozinha e bebi quase uma jarra d'água, de modo que ouvia as ondas de um mar sedento nas conchas desse areal.

É penumbrosa a casa, tudo ainda cintilava no escuro.
Amanhece. De um só salto o sol quebra todas as luzes e se infiltra no mar, corta-lhe a carne... sangra! e aporta na beira na praia - som do sol nascendo no mar.

Mas estava mesmo falando... Ah! As crianças nascem de armários.
Voltei para o meu quarto e abri a porta do armário, deparei com aqueles olhos alumiando o semi-escuro e vi que lá estava ela, enrodilhada ao fundo de um infinito, olhamo-nos numa espécie de espera e surpresa. Sorriu-me de leve em vez de chorar, colorindo tudo.
Você veio, veio de outros mundos.
O fundo do armário ainda aberto dava-lhe a escolha de voltar, mas aquela criança abraçando-se a si mesma como quem se segura para não ir, quedou-se ali, segura do novo mundo, ainda que frêmita.

Estendemo-nos as mãos, peguei-a nos braços, sentei na beira da cama e ficamos nos embalando sobre a colcha da manhã, ficamos assim perto, amalgamados, aninhados no colo do que amanheceu, num silêncio útil produtivo, numa escuta criativa, silêncio que tudo
comunica, nos enroscamos, nos aliciamos enrabichados como gatos ao sol.
Eu sei, as crianças também nascem de armários.
Alessandra Espínola
Enviado por Alessandra Espínola em 26/08/2007
Reeditado em 16/12/2007
Código do texto: T624803
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Sobre a autora
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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