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Eu oceano

Eu, oceano. As praias da minha vida molham as areias de desertos escaldantes.
Como línguas que saboreiam meus sonhos perdidos, sou ondas que vão destruindo sonhos antigos, feito castelos.
Sou ondas que voltam trazendo para mim, oceano, a matéria pura, matéria-prima do meu querer infinito e malquerido por mim.
Ouço a voz grave do meu querer, mas jamais vi a boca que me fala.
Falta-me condição mais pueril para ver o que está diante dos meus olhos e não enxergo; falta-me o que mais? Falta-me mais nada, não quero mais coisa alguma. Para faltar-me seria preciso querer.
Ela, a mulher das transparências, não entendeu que eu já quero nada, por desentendimento amoroso, felicitou-me.
Na verdade era meu próprio abandono que lhe dei, mas por amor, novamente, me calei.
Não existe quereres em mim mais nobres, a última e notória vontade são carentes de nobrezas vãs.
Nada mais me consola, nada mais me incomoda.
Desse susto tão claro, falei e falei. Não se podem aceitar desistências concretas dos que amamos, porque só sabemos amar com posse... Então se recusará a admitir que queira ter posse. Mas como negar? Se te digo: Morro! E você diz: Não.
Como negar a transparência real do que sou, já que quando apenas me deixo ser, pelo véu, apenas sou?
Está tão claro que sombras são necessárias. Meu amor, eu já não quero! Estou abastada por mim e não quero, não quero mais que eu mesma.
Não me basto, oh não! É o tal cansaço que venho falando e faz tempo! Não vou me comer, não estou autofágica. Estou plena, plena de cansaço desta coisa de dia a dia. As árvores, as alamedas, os tetos e telhados estão lá, bem longe do que eu quero. Nada deixará de estar nos seus lugares pelo simples e já cansativo - Não quero!
Como passos na areia que a água num instante vem e cobre e já não há mais, eu sou passos na areia e tenho direito ao não há mais.
Não ser é desconhecido demais para que me apontem dedos. Não ser, é assustador, é uma outra jornada. Sei eu que tamanho e forma têm? Não, nem imagino. Basta-me o medo do não ser; não preciso de dedos em minha direção, nem de olhares reprovadores. A todo instante pessoas conhecem o não ser. Não sei se não são, quando ainda queriam ser. E penso que levo em mim certa despretensão, já que não serei querendo não ser, com certeza.
Eles me acenam com pedras preciosas e se por um instante sinto um barulho que me reacende, não passa de um instante, já me vem àquela fartura, aquela sensação terrível de saciedade total.
Eu não queria que fosse assim. Queria estar esfomeada e procurar e caçar e arrebatar meu alimento a cada refeição, mas como? Como correrei ao redor daquilo que me enjoou tanto que precisei ficar a sombra?
Eu mesma diria:- vá! Fosse eu o você. Mas sou eu e eu sei que não é justo para com minha própria justiça ir além por conta própria. Arriscaria não fazer a coisa do jeito certo? Minha atual prioridade é a exata seqüência - Deixe acontecer! - Claro que é o que tenho feito sem efeito colateral algum. Aliás, meu único efeito colateral é o que mesmo? Já nem sei...
Não é sem fio da meada, não mesmo! Largo isto e não me largo. Retiro-me de lugares e não me ausento da minha realidade. Talvez no momento em que me transformei mais numa entidade que numa pessoa, a coisa toda se deu. É algo e tanto se sentir uma entidade. É de uma grandeza desnecessária! É abrangente demais. Amórfica... Talvez seja uma transmutação e fiquei sendo a célula amórfica...
Estive achando graça em amplexos. Não os quero! Amplexos é apenas uma palavra, uma simbologia da desgraça que campeia e mapeia os nortes de bússolas errantes. Morpheu anda com tantos querendo dormir em sua cama, que o coitado não tem mais onde dormir. Homens, mulheres, meninos e meninas estão deitados no berço esplêndido de Morpheu, e ele mesmo tem ido dormir na casa do vizinho, em cama dobrável e rangente. A multidão idiotizada está arrebentando as grades do rebento. Quanto mais irá tolerar Morpheu? Onde não invadiram e em multidões? Realmente? Não sei! Ah povo, meu povo! Que povo é meu? Nenhum... Nem um...
Eu sou propriedade da terra e devo a ela comparecer... Coisa mais antiga não há. E se eu não comparecer? Tem saída? E se eu descubro a terra e por saber a tal terra, consiga ludibriá-la?
Vou lhe contar assim no ouvido, aos sussurros:- Sei de algumas coisas que não se sabem por ai! Mas também não posso contar para você porque é bem provável que você também conte para outro, como na brincadeira de passa-anel ou seria telefone mudo? Tanto faz, importa que você não agüentasse e questionaria o que sei. E por não suportar o que sei e lhe contei, você contaria para outros, então, esquece!  Afasta de mim seus ouvidos sedentos de segredos. Continua nos seus medos, seu mundo colorau... Algo que posso dizer, quando se está assim, feito eu, podemos dizer o que não diríamos não estando realmente.
Entendeu? Não! Eu sei! Terei que ficar numa explicação chata e demorada... Não terei? Não? E o amor, santa criatura! Já lhe falei que por amor tenho tido paciência com sua incompreensão. É assim meu amor, quando um ser deixa de ser, ele desconecta das convenções do que aquele estado anterior exigia que fosse.
Está mais simples agora, creio.  - Quando o ser já não é, pode então ficar outra coisa.  -Entendeu? -Sendo outra coisa pode fazer o que a primeira forma não faria! - Agora sim! Chegamos numa completa confusão que me faz dar risadas. E sabe, meu amor? Dar risadas neste momento pode salvar-me de amplexos! E já disse que não quero amplexos.  E já que estamos rindo, vou te contar algo que escutei recentemente:- Como queria ser igual a você! Nem pensei e respondi: - Deus te livre! - A cara da criatura foi de um espanto que me fez rir. Ri você também, porque se creio em algo, é que o riso é a música celestial. O riso é o meio de ligação entre seres do universo. Quando rio, sinto-me atada a criança que sou, a criança que fiz, a criança que você é e ao outro, o outro, o outro... Então ri! Se não por você, ri por mim, por amor a mim. Viu como me entreguei fácil? Sei que há amor em você por mim. E não amor de misericórdia. Porque sei o quanto ruim você é e em você não há bondade alguma. Quer saber? Exatamente ai que gosto de chegar; no real amor que há em você, que sempre será brutal e cruel. Eu amo a crueldade do seu amor que é sem bondade, sem misericórdia. Mas é um amor exigente e por ser intransigente, quando resolve que vai abraçar-me, ah, me abraça realmente! Isto eu quero sim! Seu abraço. A coisa real. Guarde bem: Chegará agora a era do ósculo, entendeu? Todos vão oscular, mas entre nós não haverá ósculos. Conheceremos nossos lábios, nossas línguas e nossas almas. Meu amor! Estamos salvos por nossos abraços e nossos beijos em mim - oceano!
Correremos pelas praias marcadas por nossas pegadas. Elas ainda estão lá. A onda vital ainda está em formação nos abismos. Então venha! Vamos brindar este brutal e cruel amor que temos um pelo outro! É magnífico! Exuberante! São exclamações sem fim!
Dê-me seus braços em abraços e seus lábios em beijos! Estamos livres dos malditos amplexos e dos ósculos das traições. Somos livres, porque eu aceito seu amor feroz e você aceita meu cansaço. Para nós talvez haja um depois e o talvez seja a única coisa real que nos resta. Procure pelo tempo, procure por ai... Procure por quantos possuem um real talvez.
Eu lhe adianto, meu amor, que não são tantos que enchem o sagrado leito de Morpheu. Vá e volte logo! Venha para o oceano que sou eu. Venha...
Rose Stteffen
Enviado por Rose Stteffen em 31/08/2007
Reeditado em 23/04/2011
Código do texto: T632992
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rose Stteffen
São Paulo - São Paulo - Brasil
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