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Rezar nos pés

   Talvez devesse ter deixado todos os meus trapos, os meus farrapos de irregulares desgraças e decepções, jogados na soleira da tua porta ou em qualquer outro lugar. Eu ainda conseguia ver aquelas miúdas e poucas pedras que um dia joguei contra a tua janela. As tão poucas plumas que deixei voar, que permiti flutuar nunca chegam a lugar algum, só sei que se transpuseram entre as alegrias tuas de outrora.
   Machucou demais saber como nunca mais seria completo. Todo um vazio, uma vala de inseguranças era mais do que necessária mas ainda sim insistiu colocar-se dentro de mim. A pressão que reina entre os meus olhos, o estado de sufocar-me já fugiu do controle e não é mais possível conseguir descansar sobre esta areia.
   Quem sabe se eu buscasse alguma forma alternativa de viver, sem precisar mais depender do ar. A minha reforma de novos pisos, de novos solos deixou de ter uma coloração, por mais tenaz que fosse. Achei-me perdido entre todos os corpos e todas as almas, eu podia ser confundido com qualquer uma delas, com qualquer besta ou anjo.
   Em uma linha que mordia todas as carnes, que me rompia inteiro, foi onde encontrei sossego repentino. Era calmo ver o sangue correr, as entranhas jorrar e os vasos romper. As minhas inseguranças viraram então, as maiores certezas de perpetuar a vida. Não era algo simples, a complexidade de uma nação inteira podia ser vista dentro de mim, passei a ser uma reflexão da utopia suprema.
   O estado de miséria e dor deram lugar a uma imensa perfeição de coisas e sentidos. Passei a viver de restos e esmolas, mas não tenha pena de mim, passei a viver muito bem, muito melhor do que antes. O meu medo passou a ser uma afirmação regular de espectros de pó. Quando o chão começou a se mover, foi quando percebi que talvez estivesse em uma rocha movediça dentro de um grande mar.
   Enquanto caminhava, todos os dias, eu via as mais belas cores que até então, nunca conhecera. Agora é tudo muito mais belo do que antes, os pássaros cantam, as nuvens se movem e veja só, as flores têm aromas divinos! Mas nada é mais nobre do que a minha sombra a caminhar por entre as relvas já secas pelo outono.
   A correia que me atrelava ao chão é agora o meu elo de compromisso com todos os outros, mas por mais que me aperte os tornozelos, eu ainda caminho pesadamente pelo vento dos teus mares. A vida é assim agora, toda bonita e simplória longe de você. Não machuca mais respirar, nem deitar sobre meus pregos. Hoje me dói a cabeça e eu sei que é por inteira culpa minha. Sou mais preso e mais horrendo, quando na verdade, sou uma inconstante transição entre toda a dor e os mais longos anos de minha vida.
Stephanie Correia
Enviado por Stephanie Correia em 03/09/2007
Código do texto: T635993
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Sobre a autora
Stephanie Correia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
71 textos (3485 leituras)
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Stephanie Correia