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"Intermitência"

Factualmente há na vida muito mais do que nela se vê, do que nela própria se vive. Concomitante à morte, é a própria vida que se manifesta, opondo-a. Árdua luta de um abstrato encapuzado, enviesado de negro. Mas a morte não é negra! É um substrato já definido desde a inserção da própria vida.

Se há redundância no dito anterior, releve; a morte de alguém me entorpece, mesmo quando apenas anunciada. Daí, ser prolixa é uma forma de fugir. Escapar pela fresta da janela sem que a própria Temerosa perceba. É que me sinto entediada diante da obscuridade impenetrável da morte.

Nunca – vocábulo vasto de significância, “nunca” é o tempo em algum, e indefinidamente hermético, portanto incógnito –, já perdi as contas de quantas vezes tive que ceder ao meu difícil e incontido hábito de interpretar as palavras conforme as sinto. Mas, retorno ao nunca, pois a partir dele surgiu um fato que me pôs novamente em dúvida.

Dúvida de nunca poder entender o que há diante da morte. Se diante da vida há alegria, observada na face irradiante de um pai, ou no gesto da cadela que lambe os filhotes. Mas da Injusta nada se tem à frente, apenas uma estrada ríspida que conduz a algum outro lugar, talvez o paraíso ou até mesmo o inferno.

Causa-me desassossego ter que entender a morte, mesmo sabendo que algum dia ela será minha companheira, assim como a sua. Ainda não conseguimos engana-la. Conseguimos enganar o tempo, hidratando e reconstruindo nossa própria tez, mesmo que temporariamente. Conseguimos retardar, em alguns casos, uma catástrofe anunciada. Catástrofe anunciada? Sim, a catástrofe que eu provoco e que você também provoca, afinal, somos dotados de racionalidade, não é?

Mas, retorno ao assunto: a Temida ainda é a única certeza que permeia este mundo misterioso, é a prerrogativa de quem a vida tem. Por isso se faz necessária, porque onde há vida tem que ter morte.

Talvez você, leitor; não entenda a minha definição ou até mesmo se questione porque dela, mas há – com a permissão de uma humana inexplicável que sou – na morte a explicação da vida; do próprio viver a vida. O começo é a junção de moléculas e o fim... o fim é a morte delas, a morte das moléculas que iniciaram a vida. E isso pra mim, basta!



Anita Fogacci
Enviado por Anita Fogacci em 06/09/2007
Reeditado em 10/01/2008
Código do texto: T640793

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Sobre a autora
Anita Fogacci
Cabreúva - São Paulo - Brasil, 45 anos
532 textos (38800 leituras)
1 e-livros (264 leituras)
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Anita Fogacci