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Almas esquecidas

O corpo parecia seguir sem rumo, a noite era mais do que suficiente para o desnorte, para a sombria constatação de uma alma perdida, ou, talvez não.
Aproximei-me sem medo da retaliação, do corpo vagabundo, perdido, envelhecido e perguntei-lhe:

- Onde anda a tua alma corpo esquecido?

Ao longe uma visão de enfado e alucinação, almas perdidas em conferência, sem chegar a uma sábia conclusão:

- Que fazer com estes corpos sem coração?

E os corpos, indiferentes às almas, habituaram-se depressa, após alguns momentos de confusa sensação seguiram pela vida sem a alma, sem alegria ou tristeza, porque afinal também não tinham coração. Como seria possível escrever os sentimentos, sem alma, de coração fechado?

Corpos sem rumo, almas esquecidas num canto qualquer. O governo viu e aproveitou para cobrar dividendos, criando legislação, penas pesadas e zero de contemplação, punição exemplar, para quem ousasse ir à procura da alma, descongelar o coração ou mostrar um pouco de emoção.

Os corpos não têm rumo, a miséria que depois se abateu no mero cidadão, nem ele sabe, nem ele conhece. Nada, não sabe mesmo nada desta situação. Nem na carne, no sexo, nos berros. Ai a porcaria da vida em aceleração...

Almas esquecidas no esgoto que vai dar ao mar, misturado com a vontade e a pura emoção. Esvai-se a vida na mais pura medida com a entusiástica conclusão, ordenada porque sem alma nada melhor seria de esperar, desencantar, talvez enviuvar.

Os corpos seguem sem rumo, mesmo que a fantasiosa vontade seja a de brilhar num ser uno e um caminho sem notória ilusão...


* imagem do single dos Joy Division - Love Will Tear Us Apart
Manuel Marques
Enviado por Manuel Marques em 12/09/2007
Código do texto: T648934

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Sobre o autor
Manuel Marques
Espanha, 45 anos
548 textos (58996 leituras)
50 áudios (13973 audições)
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Manuel Marques