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** BOI TOMÉ**

                                                         
**************
Na sombra da baraúna , na ‘SERRA DA MANTIQUEIRA’ ,
Fazenda da aroeira , as quinze para meio-dia ,
Nascia ‘BOI TOMÉ’
Nome dado por ‘PAI JOÃO’, e a boa ‘MÃE MARIA’ ,
Animal rezado por dentro e por fora ,
Infalível reprodutor ,
Com forças ocultas ,
E inteligência afetuosa.

Sêmen inesgotável , povoando os pastos ,
Seu nutrimento era milho verde ,
Sal grosso , capim e pimenta ,
Soltava fogo pelas as ventas ,
No despautério , vendo a extensão da covardia ,
Do coronel Sanguinolento ,
E ao ver pai João , fundeado a ferros no tronco ,
No levantar do chicote , o disparado ‘BOI TOMÉ’ ,
Como um tufão , chifrou o coração do capataz .

Seus servos , seguindo suas ordens ,
Deixam o majestoso animal sem água ,
Sem alimento , faminto , lambendo sal grosso ,
Ao sair da punição ,
‘BOI TOMÉ’ , astuto que era ,
Não quis emprenhar nenhuma vaca ,
O animal lhe oferecia o cálice de seus sentimentos ,
Dias e meses foram se passando ,
Com a natalidade desprezível dos bezerros ,
No bolso do avarento coronel , foi aberta uma ferida.

‘BOI TOMÉ’ , além disso , açoitado de modo terrível ,
A ferro em brasa em seus colhões ,
Subjugado , dentro do extinto raivoso ,
Emprenhou uma vaca , esta , que ao dar a luz ,
Viu nascer um bicho horrendo , estranho ,
Acercar-se , do horror das pessoas ,
Oriundo com duas cabeças de gato,
Olho de peixe , dois pés de pato virados para trás ,
Corpo de homem saindo correndo ,
E em seguida deixando a sofrida e agonizante ,
Estafada mãe vaca .

Adentrando a mata espessa ,
Com grande enigma , todos com temor da criatura ,
Todos diziam que era a coisa ruim ,
DEMO , CÃO , TINHOSO , O CAPETA !
Mãe Maria , e Pai João ,
Após terem feito uma possante oração ,
Sérios , afirmou , o sinhozinho ,
Vai pagar todos seus pecados terrenos,
Ele virá acabrunhar a fazenda ,
Assuntando vosmicê ,
É preciso ter confiança em deus nessa hora ,
Não estaremos livres no engenho , nem na senzala .

Foram-se passando os dias na fazenda da aroeira ,
Pessoas não dormiam , a criatura surgia nas madrugadas ,
Fazendo alvoroço , miava , cacarejava , berrava ,
Devorando , chupando sangue dos patos , marrecos , galinhas ,
Deixando os animais , as criadagens apavoradas ,
Fazendo desaforos ,
O alarmante ainda urinava e cagava na entrada das portas ,
Com integral impetuosidade , exacerbada na anormalidade ,
Vomitava e ejaculava ,
Nas aglomeradas roupas dos varais .

Ao chamar o padre Felisberto , para bendizer a fazenda ,
Um imprevisto surgiu ao abrir a bíblia ,
Uma ventania desaforada , desfolhando as páginas ,
Fazendo cair uma carta aos pés do coronel ,
Na reconhecida caligrafia ,
Um retrato , com dedicatória da amante,
Um rosto angelical , símbolo de candura ,
Não era o que acometia por dentro ,
Arrebatada ,  presente , padecida , bela mulher do coronel ,
Amante há vários anos , Felisberto e sinhá Rosa ,
Com suas cabeças a prêmio , na cólera do coronel ,
Fogem do arraial , e vão ser afortunados
Em distantes paragens , seguindo a vida .

Coisa nenhuma dava certo ,
Morriam plantações , animais ,
A terra fértil transformando-se em areia ,
O capitão do mato para ganhar pontos ,
Mostrando-se astuto aos olhos do patrão ,
Aconselha matar Boi Tomé ,
Oferecendo o sangue do pai para aquela criatura ,
E que tudo mudaria para melhor na fazenda ,
Tomé foi amarrado no tronco da baraúna ,
Para ser sacrificado nos primeiros raios de sol ,
Ao amanhecer com arma em punho ,
Abismado , ao ver que o Boi Tomé tinha desaparecido ,
Ordena que dê uma surra em Pai João e em Mãe Maria .

Pensando que eles teriam ajudado Tomé a fugir ,
Os dois amarrados ao tronco prontos para as chibatadas ,
Ouviu-se um alongado mugido ,
Ninguém compreendia o surgimento do mugido ,
Tão perto , invisível aos olhos de quem ouvia ,
Pai João e Mãe Maria , imediatamente libertados ,
Seu oponente transpirava frio , com suas mãos trêmulas.

Com enorme esgotamento nervoso ,
O coronel começou a ficar de tocaia dentro do celeiro ,
Para capturar a criatura ,
Quando em uma noite , entorpecido pelo cansaço ,
Exausto , deixou cair o lampião sobre os fenos ,
Provocando um arrasador incêndio ,
Despertado , sendo lambido pelas labaredas ,
Com as portas travadas ,
Pedia socorro , mas nenhuma pessoa
Conseguia arrombar aquelas portas ,
De repente , não se sabe de que lugar ,
Aparece Boi Tomé , com a criatura em suas costas ,
Aquela coisa apática , miava , berrava , cacarejava ,
Fazendo malabarismos ,
Tomé tomando emposso , arrombou a porta.

O imponente coronel , de joelhos chorava ,
Implorando para não ser morto ,
O velho Pai João lhe disse ,
-Patrãozinho agradeça , eles salvaram sua vida!
-Não agradeço à besta , nem o cão ,
Repelente do seu filho , desacerto da natureza!

A criatura enfurecida , sedenta ,
Cravou-lhe as terríveis presas ,
Na garganta .
Boi Tomé , acometido em sua bondade ,
Mata o gerado filho ,
Livrando o coronel da mão do carrasco ,
Tomé evaporou-se ,
Mas todos pensam que ele faz residência
Nas matas da Serra da Mantiqueira.

O coronel hoje é um homem mudado ,
Sua fazenda prosperou ,
Tornou-se mais humano , samaritano ,
Apurando seus pecados ,
Libertou seus escravos ,
Se tornou religioso ,
Com arrependimento sem consolação ,
Procura Boi Tomé por toda a serra.

Com convicção , na fé inabalável , no mundo invisível ,
Acredite quem quiser ,
Mãe Maria e Pai João narram com muitas risadas ,
Que o arremessador de fogo pelas ventas ,
Continua emprenhado as vacas ,
Mas na verdade Boi Tomé ,
Jamais se retirou das sombras da Baraúna !

SAM MORENO
SAM MORENO
Enviado por SAM MORENO em 19/09/2007
Código do texto: T659286

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Sobre o autor
SAM MORENO
São Paulo - São Paulo - Brasil
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