Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto
"O dissipador"

Ouvia gritos, depois um medonho silêncio. As vísceras gritavam emergindo da ira. Era noite quando desfaleceu. Ao acordar, na manhã tênue, apenas o frio que lhe congelara os pensamentos se fazia presente, as marcas que na pele cravara a algoz luta, ainda aquecida pelo sangue que gotejava.

Tentativas vãs sucederam-se na pequena ação de abrir os olhos, pesavam as pálpebras, latejavam em ardor e queimavam com o escuro que impelia a sua própria visão.

Seu corpo, um mastro de imponência, inerte sobre a cama não mais causava efeito, era dejeto reputado de um homem esfacelado. Multifacetado pela sua ignorância e insensatez.

Nada de abrir os olhos, nenhum toque lhe fora permitido. Vegetava em sua própria vida, ali inerte e sombrio. Medo! Era o medo o seu maior companheiro. Batiam-se os dentes em temerosa canção. Era intrépido o seu pensar. Era certo o seu desgosto. Havia sucumbido o seu austero desprendimento, era um morto-vivo.

Não havia recordações em sua memória, havia apenas o vazio. Boquiaberto e rígido feito madeira. Era a própria seiva da morte, que ali prostrada o clamava. Fim, o limite entre a sua parcial lucidez e a insanidade havia se estabelecido, por sorte ainda lhe restara uma lacuna. Sorte ou armadilha da própria morte, que agora lhe ronda?

Fez da lacuna o seu fio de esperança. Clamou perdão em entoada voz. Suplicas ao pai desconhecido foram proferidas. Ergueu suas mãos ao céu, e numa devoção jamais vista, implorou salvação: “Salve-me, meu pai desconhecido. Olhai para este seu filho pródigo que está na beira do precipício, pronto para ser devorado pelas serpentes!”.

Silencia ainda o céu, nem vento e nem brisa: tudo era a inércia, como fora sua própria vida. E ainda, clamando veementemente atenção, reverbera-se: “Fui estróina, perdulário, um pecador atroz e demente. Sim, meu pai desconhecido, eu fui contrário e ainda o sou, mas te rogo perdão. Perdoe-me pela minha falta!”.

E assim, do céu o clarão se fez vida. Em rajadas desceram raivosos raios. Candeeiros latentes do fogo lascivo: era a salvação anunciada pela clemência passiva.

Em segundos o estranho filho do pai desconhecido se fez pó.


Conheceste as leis divinas? Pratica-as ou as ignora?

Não blasfeme em prol da fortuna. Mas não seja hipócrita ao ponto de amar àquele que dantes odiou. Perdoe-o. Ignore-o. Enfim, esqueça-o.




Anita Fogacci
Enviado por Anita Fogacci em 24/09/2007
Reeditado em 10/01/2008
Código do texto: T666317

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Anita). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Anita Fogacci
Cabreúva - São Paulo - Brasil, 44 anos
532 textos (38712 leituras)
1 e-livros (263 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/08/17 06:53)
Anita Fogacci