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TEXTO FORA DO TEMPO E CONTEXTO

Reconheço. Não me conheço mais: as cores são dispersas, a paisagem embaça, não há conforto, mas ainda, insisto: não me conformo com pouco, mas o tempo é escasso, nada se resolveu ainda e falta força para mexer nestes móveis antigos do mundo.

Há um perigo latente, uma mina implícita, o ar é rarefeito, a água já falta, todo mundo parece esperar um milagre, não acorda, há um consentimento tácito no ar. Para mudar é preciso mais que vontade, força. A porta é pesada para pouco aríete.

Eu sei, falar assim é fácil, ser inimigo do status, do corrupto é difícil e declarar isso à praça é armadilha para os próprios pés. Reconheço, é prejuízo certo, mas prezo minha falta de bom senso, de siso, por isso insisto na ladainha, mesmo sem público.

Sei que não haverá tempo, nem vento suficiente para balançar a roseira, como se diz, sacudir as prateleiras, as estruturas, as poeiras seculares. Eu antes disso, certamente, passo, mas não me canso de bater na tecla e bradar por aí.

Estou exausto nesta busca, matematicamente dividido. O riso nessa seara é pouco a compensação nenhuma. É visível o choro eminente, emociona. Sei, é óbvio, não há enigma: se tem gente doente tem que ter leito, médico, é claro.

Se tem gente com fome, comida. Falar disso é chover no molhado, mas continuo o mesmo de ontem, mas sou outro, reconheço, sendo eu mesmo, por isso repito, e se e me contradigo, faz parte da minha insistência.

Revolta não repercute mais, indignação muito menos, há drogas demais na praça. Tenho sido assim: poeira no deserto, por querer o óbvio: trabalho e salário, rio e peixe, ar e floresta, criança e brincadeira, gente e trabalho, cidade e moradia.

Mas nem tudo faz sentido, o óbvio é ululante, mas ignorado. Enfim, sou assim: ligado na tomada, palavras saindo pelos dedos, se não sangro também não estanco, sou da geração inquieta e não esqueci a meta...

Mudar o mundo, diluir o veneno, construir o futuro com o novo, ruir os erros, o obsoleto, o ditatorial, a falsa moral. Se não for assim pra mim desinteressa, estressa, tudo se dilui, rui, fico na tabela, vendido. Daí, resisto. É o que posso.

Acredito que é preciso ainda rolar as pedras, tirar o musgo, conhecer o mundo, estrada. Que tudo tem que ter fogo, o novo, mais feminino no jogo, todas as raças, toda graça e alegria, chuva e vento, cabelos soltos, longos, fora do tempo, além.
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 11/10/2007
Reeditado em 11/10/2007
Código do texto: T689762

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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