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Fim do dia


        “Céu negro arco-íris de néon...” A música invade meus sentidos, enquanto escolho um filme para encerrar meu dia. “... Eu queria, eu faria amor com você... até o gás acabar...” Vou procurar um bem meloso (“... ai de mim que sou romântica...”), para combinar com meu estado de espírito, sempre pronto a romancear qualquer coisa.
       Penso na sensualidade de Como Água para Chocolate, nos muitos, muitos beijos cortados de Cinema Paradiso, na mordida do Drácula de Bram Stoker na mocinha e na mordida da mocinha no vampiro... “Céu negro... se chover é bom...Eu queria, eu faria amor com você até a cerveja acabar...”
       Penso em Casablanca... “Ainda teremos Paris...” E nós? O que temos? Com certeza, um céu de muitas nuvens sobre nossas cabeças, alguns projetos sonhados e um oceano de fantasias. Essa é a nossa Paris.
        Troco o DVD pelo rádio. Sou presenteada com uma voz rascante, inconfundível.“Não chora não querida/ que este deserto finda tudo aconteceu e eu nem me lembro. / Me abraça minha vida, me leva em teu cavalo que logo no paraíso chegaremos...”
       Desisto do filme. Me rendo a música que convida para o balanço da rede na varanda. Apago a luz para ver melhor as poucas estrelas no céu cinza-chumbo, prenunciando uma chuva, talvez na madrugada. Respiro, fecho os olhos. Procuro sentir os cheiros da noite. A música aquece meu coração, libera minhas fantasias, instiga desejos de estar noutro lugar.
     “Oh meu grande bem/ Pudesse eu ver a estrada/ Pudesse eu ter / A rota certa que levasse até dentro de ti...” Relaxo. A música parece acompanhar meu estado de espírito. Adoro me sentir assim, viva, apaixonada pela vida, sentimento inteiro, maduro, consciente.
       “... Meu pensamento viaja e vai buscar meu bem querer...” Quando menina, temia crescer e ficar amarga, como tantas mulheres do meu convívio. Considero-me, realmente, uma mulher de muita sorte. E mais: sei que já vivi o bastante para saber que não vou mudar. Minha natureza hedonista tem sobrevivido a racionalidade do cotidiano e a mesquinharia de falsos moralistas.
       A paixão sempre fez festa no meu coração: “Vou deixar a vida me levar, aonde ela quiser...” Hum, como é bom esse balanço de rede ao som desse " pop rock ”... Bom, mas a essa altura, sei que eu não quero que a vida me leve pra qualquer lugar, mas meu pensamento, esse sim, tem me garantido ótimas viagens. Nesse território exclusivamente meu, a fantasia não faz qualquer esforço: não é convidada, não é provocada mas se instala sorrateira, avassaladora. “É só pensar em você que muda o dia, minha alegria dá pra ver...”
        Ouso pensar que, na música, vivo o meu universo paralelo, sintonizada com a poesia do universo, com os amantes das noites de céu estrelado, com quem não alimenta os desertos da alma: “Se a vida fosse o meu desejo/ dar um beijo em teu sorriso, sem cansaço/ o portão do paraíso é teu abraço/ quando a fábrica apitar...”
        Vivo. Sonho. E não terei “vergonha de ser FELIZ!”


*Agradecendo, pela inspiração, o auxílio luxuoso das vozes de Chico César, Rita Lee, Fagner, Zizi Possi, Dominguinhos, Skank, Rita Ribeiro, Moraes Moreira, Gonzaguinha.
EDNA LOPES
Enviado por EDNA LOPES em 15/10/2007
Reeditado em 13/07/2012
Código do texto: T695849

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Sobre a autora
EDNA LOPES
Maceió - Alagoas - Brasil, 54 anos
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