Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O Cobertor

Ainda embrulhado, mas já desperto, pareço um presente que aguarda o seu dono vir buscá-lo. Cruzo os braços impacientes e peço, suplicante, que o barulho lá fora cesse – minha janela é uma porta para o inferno, e eu odeio girar maçanetas e abaixar trincos. Não há sol; apenas nuvens demasiadamente esbranquiçadas, quase inexistentes. Acho falta de respeito do céu. Como oponentes que se unem para uma vingança comum, somam-se os ruídos e, lá fora, acontece agora um festival de ofensas sonoras, não necessariamente lexicais porém estritamente lixo.
Ainda embrulhado, levanto meu corpo e o obrigo a caminhar em direção ao café com creme, ao dicionário, ao vaso sanitário, ao telefone, e aí paro. Reconheço a voz, memorizada a frase -  programação incorreta, favor consultar o manual - e desligo, oblíquo, porém contido. Raiva passa.
Ainda embrulhado, retorno ao quarto - corpo e mente já concordam com o destino – e, novamente, deito e, infelizmente, volto a dar ouvidos aos palavrões sem sentido do cachorro, dos vizinhos, das máquinas identificáveis, dos automóveis desconhecidos, do cantor que eu não tolero. Continuo a esperar meu dono, como um presente que o aguarda, desperto, que tem o seu invólucro como o mais fiel dos companheiros...
Teco Sodré
Enviado por Teco Sodré em 11/11/2005
Código do texto: T70218

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Teco Sodré
Salvador - Bahia - Brasil, 38 anos
274 textos (12540 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 21:17)
Teco Sodré