Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

DE REPENTE. NÃO MAIS QUE DE REPENTE.



               De repente, ele não tinha mais tempo de ler os poemas que ela escrevia e que ele sempre gostara. E também , claro, não tinha como dizer nada a respeito, já que não tinha lido. Ela entristecia, porque ele era o leitor que mais lhe interessava. Mas era moça bem ensinada e bem comportada, entendia que havia coisas mais urgentes e importantes.

                De repente, por falar em coisas urgentes, já não eram urgentes os olhos dele. E ela entendia que o cansaço da lida muitas vezes arrefece a urgência do amor no olhar. E, ensinada a entender, entendia isso também.

                  De repente, e por falar em entender, ele não entendia muito bem o que ela dizia quando dizia sentir sua falta. As línguas que sempre se entenderam bem, deram pra se descombinar. Mas ela sabia que tudo passa, e deixou isso de lado e ficou vendo que passasse.

                 De repente, ela, que gostava de um tanto de solidão de vez em quando, começou a achar a solidão meio que de vez em sempre. Porque de repente, ele que não desmaiava depois do amor sem antes olhá-la bem nos olhos, deu para desacordar como se morresse assim, de repente.
 
                 De repente, a moça tinha tanta gente em volta e como a falta dele fosse muita, achou de ir preenchendo lacunas até que um dia, de repente, ele voltasse. Não voltava, senão temporariamente, de quando em quando e voltava ao seu mundo de ocupações demasiadas e sonhos poucos.

                 E de repente, ela se deu conta que investia muito na conta do amor e sacava muito da conta de si mesma. De repente, ela que esperou tanto por ele, pensou que era melhor não olhar o relógio, não esperar por ele que já tinha perdido o rumo e seguir os sonhos dela mesma, e deixar que as lágrimas que chorava até então se transformassem num sangue forte e quente a correr nas veias.
 
                E, de repente, ela descobriu que quem pede um tempo, na verdade não se dá conta que deu um tempo. Para o outro. Para perceber que pode ser importante, mas não imprescindível. E de repente, ela viu como era imprescindível a si mesma. 

                 De repente, ela encontrou paz dentro de si e não onde tanto buscara nos braços dele.

                  Assim, de repente, não mais que de repente.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 31/10/2007
Código do texto: T717489

Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (157869 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/10/17 15:49)
Débora Denadai

Site do Escritor