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PRELUDIO # 20

                                  PRELUDIO # 20
Os anos um a um passaram... Ela ja velhinha encarnecida e trêmula, recorda na solidão da velha casa vazia, entre acessos de reumatismo, ao lado de um quebra luz cinzento, que derrama a sombra apagada das recordações dolorosas do passado. Desfia o longo rosário de lembranças, fluindo a volúpia deliciosa de quem sofre por sentir saudade...
Solitária, na quietude fria de um imenso salão antigo, ornado de retratos que segregam tanta coisa para ela, tanta coisa que só ela compreende. Semi-cerrando as pálpebras cansadas, encobrindo uns olhos doces, de azul embaciado pela longa existência de lágrimas, ela vê com os olhos d´alma uma figura que viveu, sonhou, amou e feneceu, e  é hoje a imagem apagada que nessa noite quieta e insone, é avassalada pelos fantasmas do passado. Revive uma hora feliz, venturosa de sua longínqua mocidade. Hora em que sorveu até o último uma grande e desconhecida ventura, extranha enebriante, que lhe roubou para sempre a alegria. E foi ao som dos acordes macios, sonoros, de um preludio-alma de Chopin, que decidiu seu destino. Esses acordes melodiosos, que traduziam a sensibilidade profunda e delicada do artista, prolongaram-se por toda sua vida.
Levantando-se, tropega, da velha poltrona de veludo descorado, atufada de almofadões acariciantes, ela tateia o velho gramofone da sua mocidade. Só existe um disco velho e gasto. Aperta-o docemente encontro ao peito e com mil cuidados coloca-o no antigo instrumento. Vibrando de emoção senta-se para ouvi-lo. Ao som das primeiras notas um estremecimento, uma transfiguração, e as lágrimas cristalizadas na retina, as gotas ternas  da saudade...correm uma a uma...
Ela sente, chora e revive mais uma vez o seu romance triste encerrado nessa melodia. Enxugando devagarinho as palpebras enrugadinhas, finas como seda, vai pouco a pouco adormecendo.
Sufocando assim na inconciência generosa do sono, a sua intensa mágoa.
Talvez um dia, nessa hora de culto á saudade, adormeça eternamente ao som sublime desse preludio, levando como ultima recordação da vida, uma música serena, terna e amorosa de Chopin...




Celisa Diniz Corrêa
Enviado por Celisa Diniz Corrêa em 10/11/2007
Reeditado em 10/11/2007
Código do texto: T731074

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Sobre a autora
Celisa Diniz Corrêa
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Celisa Diniz Corrêa