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Da rua para a carvoaria

DA RUA PARA A CARVOARIA
     

Das entranhas profundas das trevas de um passado,
Emergi nesse presente, previamente preparado,
Em circunstâncias impostas, sem direito de escolha,
Mas tive que suportar, como um galho à sua folha.

Respirar a primeira vez foi dor de me arrebentar,
Pulmões enchendo de ar e eu, sem ar, a chorar.
Pois, desde a primeira infância, sob o jugo da pobreza,
Sobrevivi às penúrias, nos restos da tal nobreza,

Que me chutava o traseiro, se dela me aproximava,
Sem sequer me escutar, o que lhe tinha a dizer,
Do desejo de estudar, como seu filho estudava,
Pra quem sabe ser alguém, depois de eu crescer.

Foi nos meandros da vida, em cada esquina obscura,
Que encontrei muitas surpresas, ao longo dessa aventura.
Foi entre o mal e o bem, em minha tão tenra idade,
Que lapidei meu perfil, para o bem da humanidade.

Assim trouxe para o peito, o afago que lhe acalma,
Pude trocar a maldade, por bondade e pôr na alma.
Mas brincar, meu Deus quem dera! Dormir num teto? Pudera!
Sob marquises vazias, no cume da madrugada, só sonhos à minha espera.

Mil sonhos acalentados por jornais amarrotados,
Com notícias já passadas, que há muito nada diziam.
Só a tinta é quem sujava, as minhas mangas, do lado,
Aumentando o parecer, da sujeira que já tinham.

Fui vivendo entre as verdades, desse mundo desigual,
Desviando das mentiras e também do falso amigo.
Levando meu peito aberto, sem guardar sequer um mal,
Porque assim, amanhã, ficar um homem, consigo.

As noites foram passando e muitas manhãs também,
Os sonhos foram mudando e também a esperança,
Foram esquecidas então, as ilusões da criança,
Que a mente foi apagando pra não lembrar de ninguém.

Despertando um sentimento, nunca dantes conhecido,
Que me calava no peito, um coração tão sofrido,
Engajei-me nesse mundo esperando o meu destino,
Pra talvez realizar, todo o sonho de menino.

Durante uma certa noite, num sonho tumultuado,
Revirei-me sem parar, angustiado talvez!
Mas quando os olhos se abriram e me senti tão suado,
Entendi que aquela era, a minha primeira vez.

Deixei de ser inocente, a mente me transgrediu,
Naquela calça apertada, que amanheceu tão molhada,
Ficou registrado o fato, que minha mente pediu,
Do desejo adolescente, vida adulta começada.

Fui em busca do futuro, do meu emprego primeiro,
Fui falar com seu José, conhecido carvoeiro,
Há muito me conhecendo, não se fez de arrogado,
E foi logo me dizendo: Tu já estás empregado.

Chegastes na hora certa, eu estava a precisar,
Pois muito trabalho tendo, carvão, não posso entregar,
Com você pra me ajudar um pouco mais vou ganhar
E o teu salário por isso no bolso não vai pesar.

Lá no fundo do quintal, está vazio um quartinho,
Se lá quiseres ficar eu nada irei te cobrar,
Dormindo aqui no serviço, ao ter que sair cedinho,
Um tempo hás de ganhar e melhor vais descansar.

Duas vezes nem pensei, na primeira eu aceitei,
Dormiria sob um teto, no meu quartinho fechado,
Cobriria-me uma manta, foi logo no que pensei,
O calor, não me seria, do jornal amarrotado.

Combinamos o serviço, os horários das entregas,
Durante o jantar e sentados, ao mesmo lado da mesa.
A primeira das entregas às 5 horas tu levas,
Disse-me seu José, até com muita clareza.

Nessa noite mal dormi, contei muito carneirinho,
Meu peito era bem pequeno, pro tamanho da alegria,
No calor daquele ninho, me senti um passarinho,
Querendo cantar à noite, na angústia do novo dia.

E não é que ele chegou, mais cedo do que pensava,
Levantei, tomei um banho, as quatro, já pronto estava,
Peguei a tal bicicleta e fui acordar seu José,
Mas quando à porta bati, há muito já estava em pé.

Os sacos estavam cheios e costurados nas bordas,
Os braços de seu José, muito pretos de carvão,
E logo me orientou: Só, quatro sacos transportes,
Pois carregar muito peso, faz mal para o coração.

Senti o rubor no rosto, o sentimento pegou-me,
Os olhos lacrimejaram, umedecendo-me a face.
Pela primeira vez, alguém buscou proteger-me,
Invadiu-me a sensação, que bom se nunca acabasse.

Fiz logo a primeira entrega e voltei pra buscar mais.
Lá estava o seu José, trabalhando sem parar.
Alertou-me: Ó menino, não me vá correr demais,
É melhor chegar mais tarde do que deixar de entregar.

Começava um novo ano e seu José me chamou:
Escute aqui meu rapaz, gostarias de estudar?
Parece que respondi  no brilho do meu olhar,
E ele me completou: Teu patrão nunca estudou!

Poucos dias se passaram e fui à noite estudar,
Depois de minha labuta, cavalgando na alegria,
Caminhei por meia hora, que nem sequer vi passar,
Ansioso por saber que coisas aprenderia.

Cada aula uma surpresa e também um crescer,
Quanta coisa tem no mundo que não podia enxergar,
Alargando os horizontes, ao somar o conhecer,
Sentia sair do peito, a alma, e se libertar.

Os anos foram passando, bem depressa, sem parar,
Foi então que percebi, pouco carvão pra entregar.
Perguntei pro seu José: O que está a acontecer?
Cabisbaixo respondeu-me: Mal agüento trabalhar,

As forças me fogem aos braços, o tempo já gasto mais,
Estou entendendo agora, o que diziam meus pais:
Se a estrada for curta ou talvez longa demais,
Não importa o seu tamanho, mas sim a hora em que vais.

Em toda estrada da vida, aumentam as dificuldades,
E embora enxergues longe, teus olhos não vêem de perto,
Então dos tempos passados, te surgirão as saudades,
E verás nesse momento, se tudo que fez, foi certo.

Só uma dúvida fica, na minha imaginação,
Não sei se agi com a razão ou a força do coração,
Preciso saber agora, com minha cabeça branca,
A resposta verdadeira, de uma pessoa franca.

Foi então que o interrompi, pela primeira vez:
Escute aqui seu José, eu posso falar de ti.
Vivendo contigo há anos, meu amigo português,
Se erros tu cometestes, eu jamais os percebi.

O coração que tu tens, guardado dentro do peito,
É fácil de se entender, pelas suas atitudes.
Lá da rua ao me tirares, fornecendo-me um leito,
Não são provas de um erro, mas verdades das virtudes.

Não deixe idéias nefastas, te ocuparem a cabeça,
Quando o físico contrai, o conhecer extrapola.
Se difícil é trabalhar e demais hoje pareça,
Use apenas a palavra, que em ti é uma escola.

É isso que tens me dado, ao longo da minha vida,
Com carinho e com respeito, que jamais me têm faltado.
Por isso a todas etapas, vou levando de vencida,
Com essa arma infalível, do seu José ao meu lado.

Até hoje dividiste, bem ao meio o que ganhou,
Fez de mim um homem forte, sem pensar em teu depois,
O momento me pertence e multiplicar-me eu vou,
Ficarei feliz agora, trabalhando por nós dois.

Peguei seu José ao ombro e levei-o na janela,
Era noite de verão e o céu estava estrelado,
Perguntei-lhe ao ver a lua, se sempre olhava pra ela!
Respondeu-me sorridente: Nunca tinha reparado!

Percebi no seu semblante de olhar esmaecido,
Que o tempo impiedoso lhe tornara bem carente.
Que o trabalho foi muleta de um coração sofrido,
Que a velhice e o ócio lhes deixaram intransigente.

Olhei dentro dos seus olhos que vertiam um leve pranto,
Abracei-o fortemente e percebi seu espanto.
Agora que te peguei! Fugir que você não vai!
Não sendo mais meu amigo! Agora tu és meu pai.









Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 18/11/2005
Código do texto: T73319

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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