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Apocalipse de cada instante

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O contraditório é nossa única possibilidade, hoje se está certo, amanhã já será 100% errado. Tudo se divide, se fragmenta e se cola adiante, se remonta. Nada permanece inteiro, não há mais lugar para autoria, não há mais máxima legitima, nem a última palavra, não há mais lavra, lavrador, dono do fruto, da terra.
 
Quem planta e quem come? tudo do homem, tudo meia verdade, cidade e campo. Tudo mudo, tudo mudado, cada qual para um lado, cada maldade e verdade à parte. Tudo já foi e voltou, agora já é o próximo instante, instantâneo e diluído. Já foi. Tudo está poluído e ficará pior.

O mundo está dividido e se fragmenta. Quem agüenta tanta religião, tanta seita, tantos deuses, tantas verdades? É uma idade que ninguém mais entende. Tudo vem do ventre, mas se cria na terra e vira maldade. Tempo de homem-bomba, fim do medo, maldade.

Estátuas nas praças, júbilos, patentes? Tudo, um só monte de pedrinhas de cimento, ferro retorcido. Tudo está cada vez mais quente: o clima e a guerra, sempre presentes, e a miséria crescente. Tudo na terra cresce para baixo, para o centro, inferno.

Não há mais tempo de escrever o livro, nada definitivo, tudo volúvel, instável, tempestade já é rio abaixo. Não há possibilidade de solidez, tudo se derrete, desvanece, vai pelo ralo, para o Tietê: os amores eternos, os ternos de casamento e os móveis comprados à prestação, feitos de poeira e cola nas Casas Bahia.

De tudo só ficam os murmúrios, os líquidos, os gases estufas, o sexo bruto, o gosto pelas essências, e a ciência – que dá todas as cartas, diretrizes, as matizes, matrizes, as raízes de aço e concreto, o verde escasso, a indústria de consumo, o crescimento do país, a meta do FMI, a exploração do petróleo, mais óleo, menos água. Nada é igual ao que foi um dia.

Não há mais letras definitivas, todos escrevem a esmo suas histórias ruins, suas balelas, tudo é assim mesmo: inútil e útil para o momento, não há diferença possível. Rir e chorar e só um questão de ponto de vista, momento, vento ou tempestade, dois lados da mesma metade.

Tudo é um ritual contínuo, ternura e loucura se revezam, razão e dança. Não há mais divas, divãs, fadas e nem xamãs. Todo mundo faz sua magia, vide o manual. Tudo é comunicação, visual, fachada, celebridade instantânea, Nescau, carnaval. Tudo rápido e já é funeral, quarta-feira de cinzas, poeira. Apocalipse de cada instante, já.
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 12/11/2007
Reeditado em 13/11/2007
Código do texto: T734272

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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