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ABBEY ROAD

        Olho para o móvel carregado de Long Plays, bolachas grandes, negras, empoeiradas nas prateleiras. Clássicos, muitos. Fileiras de Jazz, poucos blues, infelizmente. E os rocks... e toda a coleção dos Beatles... e são tantos os momentos que se paralisaram na estante. Talvez, algum dia, ainda te conte alguns dos segredos que nela guardei.
        Frio inverno em Londres, 2006, janeiro, sem neblina, céu límpido, sol aberto, um insuportável cortante vento polar, gelado. Três dias a correr para visitar as fantasias de uma vida inteira: castelos, museus, relógios, igrejas, parques. Carnaby Street tão gigante e colorida  nas revistas da adolescência é só um beco estreito, escuro. Os ônibus que pego na Oxford me levam para tantos lugares, tantos lugares... tantos lugares... com pressa, quase sem fôlego, na ânsia de resgatar os anos da memória em apenas três dias.
        E, na última noite, antes do embarque da volta, um ônibus com um itinerário: Abbey Road... Abbey Road! Sem avisar minha irmã, dei o sinal, alojei-me num banco alto, senti sabores por toda a descida da Oxford, vi outras ruas, uma Londres mais pacata, belos prédios de tijolos marrons e ... Abbey Road! " The long and winding road"! A rua era longa, o ônibus espreguiçou-se sobre suas curvas como uma lagartixa explorando o teto branco de meu quarto. Enfim, vi o sobrado largo e branco como o teto branco de meu quarto e eu sabia que lá estava Abbey Road, "I've seen that road before". Gentil, o condutor avisou-me para descer na próxima parada. Fiz, lentamente, o caminho de volta até o muro baixo, branco, todo escrito, cheio de declarações. Fiquei um longo tempo ali, na calçada, apalpando o entorno, a faixa branca logo acima, os pés descalços de Paul. Ringo e John pareciam não me notar mas, George, acho que sorria... "dont keep me standing here".
        Sem portão, atravessei o jardim e o paredão branco do sobrado era o Albúm Branco... Oh, Martha, my dear. A porta estava aberta, um imenso silêncio de catedral vazia. Entrei, tudo clean, uma moça tranqüila, mais ao fundo, balcão discreto, sorriu-me. Caminhei até ela, fiz-lhe algumas perguntas, todas respondidas com discreta ternura. Perguntei-lhe se poderia visitar o estúdio. -"Hoje, há uma gravação, mas amanhã, durante o dia, volte".- Assim tão fácil mas eu não estaria mais lá. Peguei algumas lembranças e sai, de volta ao muro baixo, lendo as mensagens. Queria um lápis, uma caneta, porém não havia. Apenas o batom carmim Helena Rubstein que comprara pela manhã. Foi com ele que, impensadamente, escrevi com letras vermelhas, grandes, cremosas: "PAUL MCCARTNEY, ALWAYS IN MY LIFE!", ou coisa parecida. Ah, Paul, "many times I've been alone and many times I've cried", dias vazios preenchidos por Golden Slumbers sob o teto branco de meu quarto, uma ausente lagartixa a contar carneiros dourados, caminhos de volta, "sleep pretty darling, do not cry/I will sing a lullaby".
        As horas avançavam na noite, precisava ir, encontrar minha irmã, preparar as malas, pegar o avião. Suavemente, afastei-me em direção ao Metro, como se saisse da névoa de um sonho, em Londres, sem neblina, lua cheia, estrelas, gélido vento polar... I love you London, London... um pouco do exílio de Caetano.
        Agora, longe, tempo depois, tenho um ligeiro desconforto, quase pesadelo: Paul, camisa branca, caminhando rente ao muro, até sentir as mãos marcadas de batom, a manga branca manchada de batom, lastimando: quem seria a besta que fizera aquela porcaria?!
        Vontade de ouvir Abbey Road mas o velho toca-disco, agulha lascada,  já não funciona... "lead me to your door".
vitória Paterna
Enviado por vitória Paterna em 21/11/2007
Reeditado em 04/01/2008
Código do texto: T745635
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Sobre a autora
vitória Paterna
Santo André - São Paulo - Brasil, 64 anos
133 textos (8776 leituras)
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vitória Paterna