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OLHOS URGENTES

               Eu acho que não peço muito e na verdade é bem pouco mesmo. Não peço esteja aqui grudado feito chiclete, até porque eu não saberia o que fazer do grude. Só peço que não saia escorregando assim feito sabonete, deslizado pelo vão dos dedos sem que a gente esperasse por isso. E não sou boa em agarrar o sabonete no chão e trazer de volta pras mãos novamente. Veja então que não é tanto assim pedir que, ao sair, o faça com um certo anúncio - e nem precisa ser em brados - apenas o suficiente para que os meus braços acostumem-se um pouco e sem choque a estarem por um tempo vazios de ti. 
          Também creio não ser demais quando te peço que entenda que eu sou uma e sou outras tantas. Ora um sujeito claro e preciso, ora indeterminado, oculto. Tenho uma sintaxe um tanto complexa, embora minha morfologia seja quase sempre a mesma: insinuada em várias curvas que esperam o deslize dos teus dedos. Tenho lá uma ou duas dúzias de pontos finais, mas não consigo eventualmente me desviar de um caminhão de reticências que me obstrui a estrada dos pensamentos (já costumeiramente congestionada) e quase sempre depois de um “se” despencado pelo meio do caminho e insinuando uma interrogação logo após os inúmeros “ses” e três pontinhos. Sei que é por vezes complicado, mas tudo que peço é paciência. 
          Paciência porque não sou uma criatura das superfícies, mas com certa dose de boa vontade posso ser vista clara e nua nas entrelinhas em que me exponho. De toda forma, tenho lá meus meios e entremeios, meus meandros recheados de mistérios todos meus e segredos no espartilho, compartilhados com tuas mãos e olhos e eventualmente com tua alma, caso ela se interesse. Sou um sujeito claro, explícito exposto tantas vezes, mas em outras tantas me viro em teu objeto direto, embora ultimamente tenha notado que teus olhares já não os notam quanto antes. 
           Não há muito que fazer senão compreender a mudança nos teus olhos. Deve ser o meu ser assim complexa, meio dúbia, sujeita a diversas interpretações e sujeita a diversos questionamentos. Uma hora muito moderna e na hora seguinte, só queria olhar no teu olho e ver escrito, em letras garrafais e vermelhas, um”Eu te amo” em tom de urgência, como ambulância em atendimento de candidato a defunto, coisa que já vi vezes sem par. 
          Não sei o que é feito da urgência que tinham, nem mesmo do eu te amo. Mas se você me disser, um monte de vezes por dia, me olhando com os olhos de urgência de antes, prometo que não fico mal acostumada, que fico bem educada e feliz da vida. Sou capaz até de amansar o meu temperamento conhecidamente difícil. Mas você vai ter que achar os olhos urgentes. O “eu te amo” sem eles não chega aos meus ouvidos.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 22/11/2005
Código do texto: T74721

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai