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Ludíbrio

Outrora foi se, pois a sombra esplanada em um silêncio vil. Restou apenas uma lanterna para iluminar a estrada breve e curta. A estrada da vida. Ensejo. Lua solitária. Estirpe de ancenstrais gregos e egípcios. Esfinge. A masmorra insiste em sacudir minhas entranhas, rasga as veias, o sangue se derrama em pétalas de luz, sépalas, mistério. Um cancioneiro passa avisando que não haverá mais o amanhã. Ah, se eu morresse amanhã. O bravo poeta Álvares de Azevedo deixou inscrito o seu poetar nos versos...

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

O cancioneiro e o violeiro canta que não haverá o amanhã. Nenhuma criança virá mais o mundo. Os velhos morrerram. Os jovens serão abalados por uma rara alergia presente ao ar quando estiverem fazendo amor. Não poderão respirar, devido ao cheiro almiscarado impossível de resistir. Um anjo passa, de longas asas negras e pés descalços (semelhante ao do filme Constantine) e num sopro confidencia que não haverá o amanhã e só o amor, na sua essência mais íntima, é o importa. O diabo, para fazer graça afirma que o amanhã é a conseqüência do agora e o momento presente está cravejado de diamantes. E ele diz que é preciso dar vazão aos desejos mais profundos, fazer amor até se acabar, porque o sexo e a vida são uma coisa só. Lúcifer traz a promessa para quem fazer amor até se acabar, terá um lugar reservado nos jardins de um paraíso de liberdade total. O nirvana para os escolhidos. A única exigência é que façam amor com energia, força e entrega plena e no instante do gozo, a serpente da kundalini envolverá os jovens e levará ao secreto paraíso, com um estandarte rubro - com o símbolo do falo - fincado no portal identificando a entrada. E se não haverá o amanhã, restarão apenas suor, corpos em transe e almas em êxtase. Morrerão felizes quando adormecerem. Não obstante, restarão as cinzas, as rosas, as formas e os traços de um destino consumido por uma quase mentira. Pois amanhã é dia primeiro de abril.
Verônica Partinski
Enviado por Verônica Partinski em 30/11/2007
Reeditado em 04/12/2007
Código do texto: T759189

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Sobre a autora
Verônica Partinski
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Verônica Partinski