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CASA ABANDONADA

                                   CASA ABANDONADA

Há um que de sombras embrumecidas, vagando no ar pálido do ambiente triste, infinitamente triste, do solar abandonado.
No silêncio mesclado de mistério, dos salões em que a poeira estendeu vôos esgarçantes, côr de ramo sêco, perduram imagens falazes de sonhos adormecidos...Resoa, pelos pateos longos e vetustos, o farfalhar ondulante dos vestidos vaporosos, que ostentavam as damas lindamente empoadas.
Paira, no ar extático, suspenso nas fimbrias cinereas do passado, um compasso gracioso e agil de "minuette".
O tempo, esse gigante devorador de horas pos em tudo uma aureola de tons esmaecidos, reflexos roxos de saudade...
Á sombra dúbia das paredes carcomidas, que, soluçantes, mostram as chagas que as corroem, adejam écos sutis de vozes, cicios de preces, resto de juras trêmulas, a deuses...
Conjecturo, agoniada, vendo a ruina derissar os teus membros delicados. Aproveitando a solidão que te rodeia, as aves noctambulas construiram ninhos fofos, nos concavos do telhado coberto de hera e de musgos.
Há, pelos cantos, o trabalho monótono das aranhas tecelãs. Na faina laboriosa de rendilhar a têia quase etérea, são as únicas, ali, que criam e conservam o ritmo da vida.
O velho solar agoniza aos poucos; ouve, embevecido, os sons que ainda sussuram, num sedoso rouçar de folhas...
No parque, os cardos entrelaçam-se; ferem as corolas dos jasmins perfumados; rasgam as faces fulvas das tulipas, aljofradas de  pingos luzidios de orvalho.
O ipê, florescente, reflete no ar suas petalas aloiradas, aclarando os tons fanados de magoas e lembranças...Dolente, o repuxo canta, tange as cordas harmoniosas da harpa de sua alma. Derrama, num cascatear de pérolas, lagrimas tremulantes, como a chorar o abandono. Sopita, nos reconcavos enigmaticos de suas águas pedaços luzentes de cristal aspirações de glorias e a angustia dos destinos apagados.
Nas horas semi obscurecidas do dilúculo; no painel das tardes invernais, sente-se, no mourejar agoniado da fonte, no grito medonho das corujas e no tatalar ruidoso de asas, a imensa tristeza do que fenece na solidão soturna do abandono...
Celisa Diniz Corrêa
Enviado por Celisa Diniz Corrêa em 06/12/2007
Reeditado em 06/12/2007
Código do texto: T767363

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Sobre a autora
Celisa Diniz Corrêa
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Celisa Diniz Corrêa