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COMO VOU EXPLICAR ESSES ACONTECIMENTOS?



ESSE PUNHADO DE AREIA NAS MINHAS MÃOS

É impossível não se apaixonar pela poesia. Bem ou mal, rabiscos ou não. Todos guardam versos em suas gavetas, no porta-cédulas, em cadernos velhos, dentro das meias, em caixas de fósforos. Tal como crianças guardam chicletes mastigados na geladeira.

O mundo precisa urgentemente que todos devoremos os poetas. Fazer devorações de palavras é meu refrão. Transformá-los em lenços brancos e dobrá-los no bolso é um imperativo. Há nas poesias as coisas que mais admiro na vida: fazer silêncio, andar simplesmente se escondendo e deixar que as coisas sejam maiores que as nossas razões, falar das coisas por falar, sem pretensões morais ou arroubos de vaidades, se esconder por de trás das palavras e ir ficando, inventando paisagens.

Quem toca em um poema, toca em um homem, acaricia o rosto de mulher, (mulher significa sabedoria) e se enche de humanidades.

Pensar de modo mais ameno sobre as coisas e no tempo das coisas.

Pensar , por exemplo que a diferença entre o rio e o espelho está na posição. Os dois têm a mesma profundidade.

Se olharmos uma poça d’água ao meio dia, dá pra vê o sol de cabeça pra baixo. O sol lá no fundo...

Pisar o formigueiro e não pedir desculpas é a mesma coisa que não dá bom dia.

Café sem açúcar, pão sem manteiga. Não reclame. Isso é melhor que um dia sem televisão.

Fechar os olhos, fixar um ponto na escuridão, de certo que logo vem uma imagem. Isso é apenas uma imagem, não é terapia de regressão.

Portas e janelas somente o são quando fechadas. Experimente abri-las e tudo vira paisagem. Por isso tem gente que não sai da janela.

A porta do meu quarto, que só é porta quando fechada, possui uma nossa senhorinha com um alguidar nas mãos. Ali, de vez em quando a Suely põe um pouco de água benta, a mesma água que sai do chão, só que benta. Isso é crença. O Aluísio vai lá, fala e gesticula assim: pai, esprito santo, amém. Molha as mãos e derrama um esfregãozinho da água na minha cabeça. Pai, eu tô fazendo um curamento. Isso é oração e poesia.

Porque curamento não existia, é uma inventação. A oração que fez me abrandou o coração.

Uma metáfora é quando usamos uma coisa no lugar de outra coisa na tentativa de torná-la mais elegante. No entanto, a metáfora tem seu limite. Ela nunca será a coisa que tenta elegantiar. Mas tem o dom de iluminar a coisa que queria ser.

Imaginemos que a terra fosse um livro de finitas coisas. Finitas porque contáveis, por mais ínfimas que fossem. Se amanhã a terra se despaginasse numa grande ventania. Seríamos nós vírgulas desgarradas.

Vírgulas sim, afinal não temos o poder de ser ponto final. Por mais que agora eu tenha apagado o sol. Como apaguei quando disse. “O sol está apagado”. Um caçador de luzes disse: “o sol está delirando.” Pronto lá foi alguém colocar fogo no sol. Isso não tem final

Qual a diferença entre um homem em silêncio e uma pedra dormindo?

Um palito de fósforo somente o é pela madeira afiada, pelo torrão de pólvora que se amontoa. Daí se tira que para ser coisa, uma coisa precisa de outra coisa.

Erga hoje um castelo e veja, amanhã, você mesmo vai querer derrubá-lo.

Eu escrevo assim porque não sei falar difícil.
Falar difícil é muito delicado.

Edmir CARVALHO BEZERRA
Enviado por Edmir CARVALHO BEZERRA em 14/01/2006
Código do texto: T98885
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Sobre o autor
Edmir CARVALHO BEZERRA
Belém - Pará - Brasil
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Edmir CARVALHO BEZERRA