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Relato sucinto de uma experiência vivida durante oito anos, no desenvolvimento de um projeto para atendimento a meninos de rua, na cidade de Blumenau, iniciado em 1981.



Visão de uma educadora.
Sônia Ferreira dos Santos



Havia uma idéia.
Aqueles meninos estavam lá, soltos, por todos os lados.
Um número cada vez maior perambulava pelas ruas.
 Dormia nas ruas.
Alguém precisava fazer alguma coisa.
Então, o Juiz de Menores,  na época, Dr. Antônio Fernando do Amaral e Silva, o Coordenador Regional da FUCABEM, Pedro Caetano de Carvalho, e a  Assistente Social Alba Pires me  convidaram para que juntos, desenvolvêssemos o projeto que haviam escrito e estavam a viabilizar.



         "Fica sempre um pouco de perfume...
            Nas mãos que oferecem rosas...
          Nas mãos que sabem ser generosas...

                Dar o pouco que se tem,
               a quem tem menos ainda,
                 enriquece o doador,
           faz sua alma ainda mais linda...

              Dar ao próximo alegria,
             parece coisa tão singela,
             aos olhos de Deus, porém...
              é das artes a mais bela.”




Esta, nossa música predileta, cantada em todos os encontros, reuniões, festas e homenagens...oferecemos à nossa boníssima madrinha – Sra. Gladis do Amaral.





Nosso dia de trabalho começa.
Atravesso a Rua 7 de Setembro em direção a um antigo galpão, antes abandonado e hoje ligeiramente adaptado para o desenvolvimento de um programa estadual de atendimento a meninos de rua, que circulam no centro da cidade de Blumenau.

É maravilhoso!
É maravilhoso chegar ao Clube do Menor Trabalhador e vê-los, ouví-los, muitos, desordenadamente, porque ali tudo é assim.
Eles já estão lá. Sentados, de pé, ou correndo pelo pátio, em frente.
Alguns a me chamar carinhosamente ou saudar-me com um “Bom dia” meio sem graça, outros já a fazerem cobranças de horários ou promessas, ou coisas passadas e  até esquecidas. Outros, ainda, a brigarem comigo, fazendo queixas do dia anterior, dos monitores ou dos colegas. Há aqueles que só me olham e nada dizem porque não é preciso – eu sei. Todos a falarem ao mesmo tempo forçam prazerosamente, como magia, meus ouvidos a se duplicarem, triplicarem...  E eu os ouço a todos.
É realmente indescritível sentir a sua confiança depositada em mim, sentir que existem laços entre nós, nada tênues, mais fortes, significativos, profundos.  Nos temos como uma família.
 Toda esta energia perdida já na entrada, à porta, se renova na medida em que vou avançando para dentro deste antigo depósito, feito casa, a cada olhar que me lançam, a cada toque de suas mãos, a cada sorriso, infinitamente sincero.  E lá dentro me sinto mãe. De muitos filhos, de toda a espécie de filhos.
Ao soltar a bolsa que normalmente um deles me puxa dos ombros e coloca no encosto da cadeira, como de costume, e aquela bagagem toda, mil folhas para serem preenchidas, arquivadas, encaminhadas, instrumentais diversos colocados sobre a mesa, minhas mãos ficam vazias. Já muitas coisas, muitos gestos, muito carinho as ocupam de novo. Uma passada de mão na cabeça de um, um tapinha na mão de outro, um par ou ímpar para decidir alguma tarefa, uma puxada na camisa...
E a minha voz, sinto que a minha voz aumenta e abaixa de tonalidade, sendo ouvida por todos durante todo o tempo, até que alguém diz: “Ih... saco! Já começou!” – Aí, é hora de parar, de meditar, de harmonizar.

Começa então nosso novo dia de trabalho, digo, de vida.
Mil problemas, mil queixas, mil situações confusas para se resolver. Todas as carências possíveis me vêm aos ouvidos. E eu, de alguma forma procurando, o mais racionalmente possível, ir resolvendo, orientando e analisando cuidadosamente cada caso.
Assim vou indo, durante todo o dia, voltada só para suas vidas, ora frágeis, ora invulneráveis.
E aquela sala, cujo letreiro diz “Não entre sem licença”, torna-se rápida e disfarçadamente um tribunal, um mercado, escola, hospital, ginásio de esportes (se considerar as bolas de papel que eles miram no lixeiro ou chutam por baixo da minha mesa), oficina, cinema, biblioteca, teatro e, por vezes, arena, onde a violência desperta como um furacão, de algum daqueles olhos, voltando a ser, a seguir, apenas uma sala de coordenação.  Esta é a minha sala, ou melhor, a sala de todos, onde de vez em quando, fatigados, também monitores, merendeira e técnicos, sentamos, relaxamos e respiramos fundo, para em seguida, levantar e começar de novo.  E por mais que eu tente esvaziá-la, pois a cada fechar de olhos eles a invadem com as desculpas mais esfarrapadas, cômicas ou bem trabalhadas e acabo, por vezes, cedendo e  vejo-me às voltas com mais de mil mãos por todas as coisas que existem lá.
E, em seguida, me ponho a circular pela velha casa, dividida em -  três salas, uma de coordenação e duas para atividades, dois banheiros, uma quadra, um refeitório e uma pequena saleta para alfabetização, no piso superior.
Na verdade um grande e velho galpão onde caminho, de um lado a outro, movimentando-os, entregando-lhes vassouras, tesouras, papéis, martelos, remédios, bolas, toalhas... Eles me seguem a todos os cantos, oferecendo-se para fazer coisas, pedindo-me coisas, dando-me coisas para consertar, para guardar, para segurar, para confeccionar, para cuidar... e depositam em mim, naquele momento, a confiança que talvez, lá fora, em ninguém mais o possam.
 E quando aprontam... Ah,  alguns  temem  me olhar nos olhos. E sentem vergonha, sim, embora eu tenha que descobrí-la, porque as escondem com todo o seu poder.   Há vezes em que me enfrentam, me hostilizam, me magoam.  E eu, independente das reações, de alguma forma, os amo ainda assim. Até mais, em algumas situações. E fica tudo bem, quando minutos depois, ou no dia seguinte perguntam se não quero que me engraxem os sapatos, me lavem o carro, me façam uma pulseira, me sirvam um café, varram salas, consertem algum armário (aquele que não se sabe quem quebrou).

A rotina do Clube é composta de atividades externas e internas e seguem horários definidos.  Quando os meninos não estão no trabalho, ou seja, desenvolvendo suas atividades de rua como: engraxando sapatos, distribuindo panfletos, catando papelão, auxiliando os caixas de supermercados, cuidando de estacionamentos, lavando carros, vendendo picolés, servindo nas construções civis, estão nas dependências do Clube participando de atividades dirigidas, confeccionando objetos de vime, confeccionando entalhes, fazendo picolés para vender e outras, sempre sob orientação dos monitores Gerson, Luiz, e/ou   Layse...
 Há também os horários das atividades esportivas, o maior atrativo do Clube: o futebol, o volei, o ping-pong-pong, o pé-bolim, etc.
Desenvolvemos ainda, um trabalho paralelo com seus familiares, orientado pelas Assistentes Sociais da FUCABEM, Maria Packer e Gláucia Wirts, através de visitas, reuniões e outros contatos.   Este também não é  um trabalho fácil, pois, na maioria, seus pais, ou avós, ou tios ou outro familiar qualquer, são omissos, e ou não reconhecem seus papéis e obrigações para com os adolescentes.
Constatamos  casos inacreditáveis, de pais que mandam seus filhos para rua e estabelecem valores para que possam retornar para casa. Se estes não conseguem, o valor em dinheiro esperado, ficam privados de entrar em casa. E voltam para as ruas onde se juntam a outros e por lá pernoitam.
Identificamos as mais cruéis situações – familiares que estimulam os garotos a furtar, a se drogar, prostituir...
Também é proposta do projeto fazermos um trabalho de incentivo para retorno à escola.  A maioria abandonou os estudos e, como dizem seus pais, não podem “perder tempo”. Precisam conseguir dinheiro para levar para casa. Dinheiro que na maioria das vezes os pais gastam se alcoolizando. Muitos se recusam determinantemente a retornar aos estudos, uns por causa da idade, outros porque já não suportariam ficar sentados por muito tempo, devido as suas ansiedades, outros porque já foram expulsos dos estabelecimentos escolares por onde passaram e os que voltam necessitam de acompanhamento diário dos monitores. Nas atividades, nas tarefas, na freqüência...
 Para os analfabetos e mais comprometidos, mas que ainda desejam aprender, preparamos uma sala de alfabetização nas dependências do Clube. E para conseguir sua freqüência e permanência, estabelecemos horário especial, à noite, duas vezes por semana, quando voluntariamente nos revezamos eu e uma colega pedagoga, para desenvolver tal atividade.  E consideramos um sucesso quando, dos oito que iniciaram, três se alfabetizaram e mostraram isso lendo uma mensagem de Natal, nas festividades de  final de ano.

Os dias junto a eles  são emocionantes. Cada manhã traz novidades ao nosso convívio. Várias são as situações de conflito, vários são os momentos de desespero, onde decisões precisam ser tomadas de imediato, não dando tempo de analisar, refletir e ponderar, mais precisamente.
As diversas ocorrências diárias exigem que estejamos atentos, em vigília, sempre prontos para responder às suas mais petulantes, indiscretas, e/ou ingênuas dúvidas.
Muitos acontecimentos ali ficam registrados em nossas mentes, para sempre, como experiência que nos faz crescer e ajuda a compreender melhor o comportamento humano. Eu digo nós, porque isto ocorre com todos nós. Meninos e educadores, que habitam aquele espaço, aquela casa, ora mal, ora bem assombrada.

 No casarão, algumas de suas necessidades básicas são satisfeitas. Eles recebem alimentação – café da manhã, almoço e janta, que são preparados e servidos, com carinho, por Dona Anita, a merendeira, que exercita todos os dias sua paciência, com esta clientela faminta. Seu cardápio é enriquecido com doações das verdureiras próximas, cujas frutas e verduras  Dona Anita recolhe diariamente.
Também lhes proporcionamos os cuidados com a higiene, através dos banhos, escovação de dentes, corte de cabelo, que eu mesma faço, assepsias em seus freqüentes ferimentos (aplicação de injeções, curativos, administração de medicamentos...)  e encaminhamentos para tratamento de saúde, necessidade de quase todos.
Através de voluntárias a quem recorremos sempre que um atendimento foge às nossas possibilidades, também realizamos alguns encaminhamentos de saúde para seus familiares (ginecologia, dermatologia, fisioterapias...)

Todas as ocorrências internas são cuidadosamente administradas porque podem interferir nas suas atividades externas.  Eles são muito agressivos e respondem com violência a qualquer atitude que lhes pareça nociva. É necessário que a equipe de trabalho também seja trabalhada, através de reuniões, para estar sempre consciente das características de tão difícil clientela e todos adotarem  uma única postura diante das situações problema que surgem.

Um dia tive que sorrir incontrolável, quando um deles assistindo TV (momento em que não podem fumar), fumava escondido e  sentou sobre o cigarro, quando abri a porta.  E devido ao tempo em que o manteve escondido, queimou calças, banco, dedos...  Ele não precisava fazê-lo. Eu o teria convidado pra sair da sala após um “sermão”, como dizem, e ele continuaria a fuma-lo lá fora (já que é impossível tirar deles o cigarro).

 De certa forma, nós que trabalhamos com eles, nos sentimos satisfeitos, pelo menos com o reconhecimento dos limites na casa que, com a participação deles foram estabelecidos. Estes limites eles reconhecem. Na verdade só  respeitam as regras que com a participação deles é determinada, para convívio naquele lugar. Foram elaboradas, junto deles, em reunião, aprovadas e anexadas na parede do Clube, para visualização diária. E são inquestionáveis. É o “Regulamento da Casa”, o que é a primeira coisa a ser repassada aos novatos. Aqueles que surgem na cidade desenvolvendo alguma atividade e a quem os veteranos proíbem de trabalhar sem  a carteirinha, ou seja, o vínculo com o Clube.  A carteirinha é um instrumento criado pelo Juizado de Menores, para aproximar os meninos do projeto e facilitar o trabalho social  desenvolvido com eles. Recebem-na assim que se inscrevem no Clube. E nesse momento firmamos o vínculo. Pegamos seus dados, endereço, informações a respeito da família, ou das pessoas de seu convívio. E aí nos deparamos com as precárias situações em que  vivem, sua história ...  Tal documento, com foto e dados pessoais, é para a maioria, o único que possuem. Parece que tornam-se “pessoas”, quando a recebem. Eles têm com ela o maior cuidado. Embora não fosse este o objetivo, soubemos até que a apresentam ao candidatar-se a empregos, para fazer compras, identificando-se e até...para tentar entrar no cinema de graça. Também  ao serem presos, para terem seus direitos respeitados.

 E assim seguem-se os dias.  Seus comportamentos são muito instáveis, dependendo da noite anterior, das relações com a família, com amigos, ou com qualquer pessoa que lhes cruzou o caminho.

Sua linguagem precária e pobre é sempre o maior problema nos relacionamentos. Os palavrões são difíceis de evitar. Alguns se desculpam quando o dizem, mas há os que desafiam, repetem e provocam as nossas mais variadas reações. Afastam-se simples e calmamente ao olhar sério, repreensível e frio de um de nós, quando não acompanhados de algumas palavras, inúteis para estes, num momento assim, quando agressivos.
Suas personalidades os fazem agir das maneiras mais diversas  e posso dizer que “acho” que conheço suas reações, na maior parte das vezes. Alguns, muito poucos, choram; alguns soltam palavras ofensivas, sem parar,  não se deixando vencer através delas; outros calam-se e expressam em seus olhos o que não conseguem com palavras; outros, violentos uma grande parte, usam de agressões físicas, normalmente para resolver suas diferenças; outros ainda  partem para a guerrinha  de nervos, o deboche, o escárneo, levando as pessoas ao seu limite, estes, os mais difíceis de se tratar, porque nos tiram da linha.
São incoerentes. Ora querem ser tratados com igualdade, ora querem ser diferenciados.
As vezes nos confundimos, trocamos as coisas e acabamos sendo injustos com alguns, em certos momentos. Mas tudo se resolve, acabamos negociando, nos entendendo e tudo fica “dez”, como dizem.
Na verdade somos uma família, e como tal, no dia seguinte, somos todos sorrisos uns para os outros.
As segundas-feiras são sempre interessantes. E estressantes. Muitas novidades e mil notícias correndo pelo Clube. Boatos que ouviram nos botecos, conversas ao engraxar, nas ruas as vozes correm soltas. E os panfletos que distribuem, os deixam sempre informados da nova loja, do novo restaurante, do novo filme, as novas promoções... Alguns comentam ocorrências policiais, onde na maioria das vezes, há um deles envolvido.  Cometem infrações diariamente, roubam objetos, assaltam residências, lojas, agridem pessoas, se drogam – tomam bebidas alcoólicas, cheiram cola de sapateiro, fumam maconha, intoxicam-se com xaropes, comprimidos, provam poções alucinógenas...  Alguns são bastante comprometidos e com estes o desafio é  grande. Mas o assumimos.  E temos conseguido resultados.
Sempre há informações que alguém está ferido, em conseqüência de um acidente qualquer, uma briga, ou apanhou de um policial, ou na negociação de drogas, ou do padrasto...   Estas são as más notícias que irão render durante toda semana, através de entrevistas, repreensões, discussões, suspensões, tratos, promessas e por vezes, visitas à delegacia, onde esperam ansiosos alguém falar em nossos nomes, que significa – muita bronca, mas também compreensão e sobretudo, segurança e liberdade.  E quando isto acontece, sempre um deles, geralmente os mesmos, me dão a notícia, já no portão. As vezes a conseqüência é uma troca de socos no banheiro, ou na quadra, ou fora do Clube – “Seu dedo duro”!

Nas manhãs de chuva, pôxa, quando lá fora chove, a velha casa se torna pequena. Eles todos aparecem e a enchem com suas vozes altas, com suas correrias, com seu entusiasmo de crianças e sonhos de adolescentes. Ficam como loucos. Espalham-se por todos os lugares, solicitam-nos três, cinco, dez deles ao mesmo tempo. Questionam sobre assuntos diversos e querem todas as atenções. Alguns assistem TV, outros jogam bola e outros simplesmente  circulam por todos os cantos do Clube revirando, chutando, resmungando e acabam sempre as voltas, forçando a entrada ou pendurados à porta da sala de coordenação. E os monitores, ora na sala de TV, ora na quadra, ora no refeitório, ora nos banheiros, circulam, circulam, cuidadosos para tê-los à vista todo o tempo. Aí acontecem as brigas. Querem resolver as diferenças, descarregar suas agressividades, trabalhar suas frustrações.
Quando chove as ruas não lhes parecem úteis, eles não são notados, eles não produzem e correm ao Clube para esquentar-se, secar-se, alimentar-se, satisfazer-se de algum modo. É que há calor sendo distribuído lá.  Aí, as atividades dirigidas lhes parecem muito mais interessantes. Participam delas, colaboram, produzem...   Então conversamos, jogamos, sorrimos, nos abraçamos, dançamos, falamos uns aos outros de nossas vidas, nossos planos... E  esquecemos o mundo lá fora.

Nas comemorações, Meu Deus! É quando mais nos desgastamos. Nós, em preparar, organizar e eles em querer aproveitar ao máximo o que lhes proporcionamos. E são nestes dias de festa, de atividades especiais em que mais identificamos suas carências, porque tornam-se sinceros mais que nunca, livres, de vergonhas, de medos e de ordens. Libertam-se totalmente e revelam sua revolta pela organização ( que não conheceram), suas revoltas pelas visitas e autoridades (que não aprenderam a respeitar), sua revolta pela beleza e paz (das quais sempre foram privados). E fazem o que querem e esquecem-se de  promessas, de normas, de posições e lideranças. E nos entristecemos quando o que foi tão bem planejado e preparado acontece simplesmente, sem que se possa intervir, sem que se possa controlar. E eles fazem a sua festa, a seu modo. Mas no final sempre acontece  e acabamos satisfeitos, de alguma forma e com entusiasmo sempre novo e forte para uma nova comemoração – a Páscoa, o dia das Mães, a Festa de São João, o Dia das Crianças,  o Natal... que nunca deixamos de lembrar e festejar.  Sabemos o quanto eles precisam disso.   As comemorações de Natal são sempre maravilhosas. Temos algumas boas almas, voluntárias que nos conseguem os presente, os doces e o que mais necessitamos para tornar esta uma festa especial. Nossa madrinha maior, Dna Gladis, esposa do Juiz de Menores, sempre envolvida na causa, é uma pessoa especial divulgando o projeto e conseguindo formas de colaboração para o avanço de nosso  trabalho.
Tem também os aniversários, cujos dias são comemorados e por alguns esperado por um ano inteiro, pois o pequeno e singelo presente – a camisa, a bola, as meias, cuecas, o sabonete, desodorante, materiais para engraxar,  ( normalmente doados pelas madrinhas ) e  a reunião gostosa na hora do lanche, os bolos com velinhas feitos com carinho pela merendeira, os parabéns acompanhados daquelas musiquinhas que todos sabem cantar, nunca são esquecidos. Ao menos lá, por nós. E eles eufóricos, aguardam estes dias em que se tornam importantes, e únicos, diante de todos os outros.
Houve um tempo, lembro-me, que decorávamos a sala para os aniversários, enchendo-a de balões, cartazes...e eles assim que chegavam, estouravam os balões, rasgavam os dizeres e hostilizavam-se uns aos outros, jogando suco e fazendo trocas e venda diante de nós, dos presentes recebidos. Hoje, sentam-se felizes, cantam e respeitosamente aceitam o aniversariante como merecedor daquelas homenagens, e este, guarda com carinho, o significante presente recebido – quando uma camiseta, veste-a na hora, abandonando num canto qualquer a que usava, que naquele momento não lhe interessa mais. Eles querem sentir na hora a satisfação do presente recebido.
Há também os bazares que montamos, por ocasião das reuniões, onde vendemos aos seus familiares, a preço irrisório, objetos diversos e roupas, conseguidos através de doações que arrecadamos.  Tal prática tem a  finalidade de além de possibilitar a obtenção de mercadorias que estejam necessitando, auxiliar na manutenção do Clube, para adquirir materiais esportivos (bolas de futebol, raquetes e bolas de ping-pong, etc.), já que seu consumo é muito grande e a quantidade  fornecida  pelo projeto é insuficiente.  Em alguns momentos e dependendo da situação também arrecadamos mercadorias (remédios, roupas, produtos de higiene, fraudas, móveis, etc.), para doar. Porém, antes constatamos a necessidade, através de visitas domiciliares.

Há momentos em que nos divertimos – quando jogamos futebol, quando brincamos de capoeira, quando dançamos, quando passeamos, quando viajamos, quando programamos e realizamos atividades comemorativas. E há momentos em que sofremos muito – quando discutimos, quando necessitam de repreensão, quando algum deles está preso, ferido, escondido, acuado, abandonado, desesperado...Quando a dor está em um, está em todos e isto o que nos faz assim – tão próximos e é difícil enumerar as formas todas de dor a que estão sujeitos – são muitas, porque estão expostos a tudo o que espreita as ruas e, também em casa.
 Eu falo de meninos de rua, daqueles que já quase ou nem tem mais vínculo com a família, que circulam pelas ruas durante o dia e à noite não tendo para onde ir, ou não querendo voltar para a casa, onde nem fazem falta, ficam mesmo por lá dormindo em papelões, sob a ponte, nas construções, nos postos de gasolina...  Daqueles que cometem infrações, daqueles que se confundem entre o certo e o errado, daqueles que não vêm o caminho...
São fatos inesquecíveis como estes que caracterizam um trabalho difícil e divertido. É uma experiência interminável, pois cada dia coisas novas, situações novas e difíceis, envolvem este Clube de pequenos trabalhadores que correm as ruas da cidade, em busca de aventuras, de chances, e de sobrevivência. E que, quando cansados vem a procura de pessoas, que lhes abrem os braços e os aceitam como vierem – vitoriosos, eufóricos, limpos, esperançosos e felizes ou, derrotados, violentos, sujos, angustiados e infelizes.

Já foi difícil, desanimador e cansativo fazê-los usar o coração por alguns minutos, ao invés dos olhos. É que seus olhos que prematuramente a tudo vêem, tem respostas imediatas, estando em uma posição superior,  enquanto seus corações ficaram cada vez mais afastados do mundo, devido à necessidade que tem do imediato, tornando-os duros e egoístas, bloqueando a relação – olhos e coração. Reagiam apenas pelo que viam e eram assim, quando foram atraídos pelo grupo, para a equipe, para o projeto.

O projeto teve seu início quando dois educadores pegaram uma bola ( após estudo minucioso de como chamar-lhes a atenção) e saíram pelas ruas da cidade convidando os meninos, na época em número de vinte, para jogar num campinho improvisado, próximo do centro da cidade,  já utilizado por alguns. Ali começou a ser desenvolvido o projeto.  Os encontros foram sistematizados e criou-se o CEBEM do Engraxate, uma vez que todos praticavam a atividade de engraxar sapatos.   Sua sede foi instalada numa casa  abandonada, no centro da cidade, indicada por eles, local que  costumavam freqüentar para dormir.
Em 1983, portanto dois anos depois, a velha casa foi destruída pela grande enchente que assolou a cidade de Blumenau e  demos  continuidade ao projeto ocupando um prédio, também  velho e abandonado, de localização central, condição básica, efetuando algumas adaptações.   Como o número de adolescentes aumentava, considerando que famílias carentes, em busca de oportunidades, oriundas de outros municípios mudavam-se para Blumenau e suas crianças passavam a engrossar o número de meninos na rua, em atividades de subemprego, as quais se diversificavam, mudamos o nome do projeto para Clube do Menor Trabalhador.   O projeto não contemplava meninas, porque eram muito poucas e não desenvolviam atividades de subemprego.  Havia   algumas rondando a Obra, circulando junto aos meninos, as quais praticavam a prostituição, esmolavam, porém eram  de cidades vizinhas e que  apareciam eventualmente.

Lembro-me de uma ocasião em que eu apresentava o Projeto aos alunos da Faculdade de Ciências Jurídicas  da FURB, a pedido do Juiz de Menores, Dr. Amaral, e um jovem acadêmico me deixou tremendamente frustrada, ao perguntar o que era destes meninos quando completavam dezoito anos.  Se no dia seguinte que aniversariavam encontravam as portas fechadas pra eles.
Foi constrangedor responder. É, na verdade o projeto limita  seu atendimento à idade.  Não há estrutura para atender os que deixam a menoridade e continuam na mesma situação.  Mas acabamos acompanhando alguns deles por algum tempo ainda, embora com limitações.   Alguns encaminhamentos, alguns favores, orientações, por conta do vínculo, ainda podem ser realizados.

O projeto Clube do Menor Trabalhador foi divulgado através de troca de experiências em seminários regionais, estaduais e nacionais.  Projetos semelhantes desenvolvidos no Rio de janeiro, em São Paulo, em Pernambuco foram visitados ( através do UNICEF), para que na troca de experiências, subsídios pudessem ser colhidos para solução de suas falhas contribuição e crescimento do programa.

É uma coisa muito rica esta minha convivência com eles.
Cresci muito, aprendi muito, realizei muito e valorizo hoje coisas que antes não poderia. Conheci um outro lado da vida, de muita luta, de muita dor, de muita raiva e também de muita coragem. Presenciei cenas, dividi sentimentos, sofri e entendi algumas razões que levam crianças e homens ao desespero e ao crime.

Levarei para sempre em minha lembrança, imagens e palavras que lá vi e ouvi e que em alguns momentos de minha vida retornam inspirando-me e ajudando-me a tomar decisões, a julgar e a construir no meu dia-a-dia, a relação com as pessoas com quem convivo.







Transfiro para meu coração, para sempre, o projeto “Clube do Menor Trabalhador”, com seus inesquecíveis participantes -  Dodô, Nivaldo,Keko, Caio, Orelha, lucianinho, Nick, Espiga, Bocão, Leandro, Pedro Paulo, Osni, Leonildo, Ivo José Carlos, Jorge, Cláudio, Alceni, careca, Agnaldo, Zeus, Silvinho, Gilmar, José Paiano, Wilton, Olívio, Gerson, Dna Anita, Layse, Zé,  e todos os outros.



sofer
Enviado por sofer em 23/01/2006
Reeditado em 23/01/2006
Código do texto: T102722
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Sobre a autora
sofer
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 60 anos
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