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DEPRESSÃO (A QUEM POSSA AJUDAR...)

                                   
Todos os dias encontro alguém que diz ter tido depressão, estar com depressão, ter uma amiga que sofre de depressão. Já observei que, dentre os textos que escrevi, um dos mais lidos é a depressão. Talvez por ser uma das doenças do século passado e atual, a população busca todas as formas de solução para amenizar esse sofrimento. As pessoas que relatam suas respectivas “via crucis” têm sempre as mesmas características: olhos empanados pela dor da alma, a pele do rosto vincada, ar de exaustão, de derrota e uma excitação anormal seguida de desespero e lágrimas. Olhares que imploram ajuda  como se finalmente fossem encontrar em mim o remédio para a cura. Nessas horas, meu coração fica pequeno e, de alguma forma, sinto-me recompensada por ter sido uma das “premiadas” por essa doença implacável. Na verdade, tratá-la é quase como que trabalhar um vício qualquer: difícil de superar, mas NÃO impossível! Para começo de conversa: a exemplo dos dependentes das drogas e do álcool, os depressivos não devem dizer que tiveram depressão, pois esta é uma doença em estado latente. O indivíduo nasce com a predisposição de tê-la e um dia, sem aviso prévio ela surge para embaralhar tudo na vida... nossa e na dos que convivem conosco. E começamos a viver dramas de fazer inveja a qualquer novela mexicana...
O depressivo tem de admitir que é e sempre será um “depressivo latente” se quiser iniciar o caminho da "cura". Cura que, com certeza, há de durar pelo resto da vida se souber administrá-la... Como? Primeiro, procurando um profissional competente que não queira interferir no seu "modus vivendi", que não pense em manipular sua mente e muito menos induzi-lo a tomar esta ou aquela atitude. Digo isso por experiência própria. Pensei que iria melhorar e deixei as tais "sessões de análise" cinco anos e meio (e muitos e muitos reais) depois de ter sofrido verdadeira lavagem cerebral em mãos de famoso psiquiatra de São Paulo, conhecido em todo o Brasil. Hoje percebo, de forma bem nítida, o que aquele homem poderia ter feito comigo se Deus não tivesse intercedido em meu favor... Um psicoterapeuta igual àquele - mercenário, anti-ético e oportunista -não trata o cliente como um doente e sim, como uma presa, uma farta fonte de renda que, se souber explorar usando de sua experiência profissional, tira-lha a pele e a alma... Comparar um tipo desses com um aliciador "religioso" que fanatiza seus seguidores (a exemplo dos "donos" de seitas), não é nenhum exagero. Claro - e isto desejo enfatizar bem - que não é meu propósito generalizar e estender a malfadada experiência que tive com aquele médico a todos os psicoterapeutas.
Exausta e desesperançosa  encerrei-me dentro de mim e não quis mais ressurgir. Atentei contra minha vida, em pensamento, de várias formas e muitas vezes. De tal sorte que, até hoje trago na pele uma pequena marca da conseqüência de um ato desesperado...
Mas um dia, como que se tivesse ocorrido um milagre, numa última e ensandecida luta, sorvi da penúltima gota d'água que havia dentro daquele poço escuro em que caíra. Minhas forças começaram a dar sinais de que queriam voltar. E eu voltei. Procurei o que digo ter sido o melhor caminho que um depressivo deve percorrer: o que conduz a um neurologista. Com ele, não teve erro. Expus o que sentia, tudo pelo que passei e, depois de alguns exames estritamente necessários, ele me explicou o que nenhum analista havia mencionado: a responsável pela minha depressão era a diminuição do nivel de serotonina - um neuro transmissor existente no cérebro cuja função é a de modular o humor. Receitou-me um antidepressivo para inibir a recaptação da serotonina elevando seus níveis endógenos de primeira linha e, ao deitar, um ansiolítico.
Perguntou-me se existia algo que gostasse muito de fazer: "Escrever!" respondi. “Então escreva. Escreva sempre, escreva um livro. Realize seus desejos. Deixe fluir todas as emoções de seu coração sem medo de se expor. E pratique alguma atividade física. Aquela de que mais gosta” completou. Segui seus conselhos e fui à luta. Em pouco tempo voltei a ser o que era. Procurei uma academia e passei a dançar forró e axé, unindo o útil ao estético: saúde e boa silhueta. Escolhi o yoga como atividade física para relaxar. Sabia que não ficaria em nenhuma academia, pois sou avessa a elas e decidi continuar o tratamento sozinha, em minha própria casa. Renasci e hoje me vejo como sobrevivente... Lógico que minha família exerceu papel preponderante na recuperação, pois apesar de terem sofrido muito, não me abandonaram um só minuto.
Sinto orgulho de ter vencido a fase negra da minha vida! Se a depressão vai despertar e se manifestar outra vez, não sei. Mas tenho certeza de que se acontecer de novo, tudo será diferente e infinitamente mais fácil, pois já sei como agir e o que fazer. E, o que é o fundamental: sei que sou muito mais forte do que ela; sei que posso dominá-la e não permitir que me domine nunca mais! Afinal, se superei a mim mesma uma vez, por que não hei de superar-me de novo, agora que já tenho intimidade com ela? Ademais, no fundão daquele poço, ainda existe uma última gota d’água... Sempre existirá!

 

Miriam Panighel Carvalho
Enviado por Miriam Panighel Carvalho em 09/04/2005
Reeditado em 30/09/2007
Código do texto: T10514
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Sobre a autora
Miriam Panighel Carvalho
São Paulo - São Paulo - Brasil, 57 anos
87 textos (22596 leituras)
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Miriam Panighel Carvalho