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A história da minha morte

Já era tarde e estava muito escuro e frio la fora, logo cairia uma tempestade muito forte. Papai ainda não voltara do trabalho, e mamãe estava no hospital com meu avô.Sendo assim, eu estava sozinha com meus irmãos, o que não era de muito valor.
Milena, a mais nova de todos, dormia.Cristian, o irmão do meio, estudava. E eu, bem, eu estava simplesmente sentada na grande poltrona de leitura da sala(como meu pai gostava de chamar), envolta em uma coberta quentinha, pensando na
vida... A lareira estava acesa, o que criava um ambiente agradável.
Imersa em pensamentos, sentimentos e razões, acabei pegando no sono. Não demorou muito para que minha mente vagasse por dimensões inexistentes no mundo real, as quais costumamos chamar de sonhos.
Não me recordo ao certo, dos meus sonhos, mas sei que sonhei, pois simplesmente me recuso a acreditar que o ocorrido foi real.
Foi como se eu saisse de meu corpo, me vi como num espelho. Mas sabia que não se tratava de um espelho.
Um vulto entrou pela porta da sala, cheguei a pensar que fosse papai, mas logo percebi que não era. Era uma mulher, então pensei que fosse mamãe, mas também não era.Definitivamente, mamãe não se comportaria como o tal vulto se comportou.
A mulher arrancou das mãos de Cristian seus cadernos, dos quais ele tinha muito gosto e cuidado. Acordou Milena aos berros e a atirou para perto de Cristian. Conduzi-os bruscamente até o lado externo da casa, onde uma tempestade despencava. Quanto a mim, ela deixou que dormisse, não me arrancou a coberta e nem fez algo maliguino. Ela simplesmente recostou-se a meu lado, acariciando-me a face de um jeito materno.
Pouco a pouco aquele vulto foi tomando forma. De tal modo que pude ver a face, o contorno dos dedos da mão, pude até sentir sua temperatura e a textura do cabelo. Parecia com a minha mãe, mas não podia ser ela.
Logo adormeceu. Então, levantei-me e fui resgatar meus irmãos. Abri a porta e deixei que entrassem. Para minha surpresa nenhum entrou reclamando ou batendo os pés. Entraram como se nada tivesse acontecido. Milena deitou-se no sofá, cobriu-se e voltou a dormir. Cristian recuperou seus livros, sentou-se no tapete, e voltou a estudar. Estavam encharcados, mas isto não parecia incomodar.
Eu não sabia se estava realmente participando daquela cena, mas tinha certeza de que não era confortável assisti-la.
Foi exatamente nesse instante, que tentei ao máximo que pude, me convercer de que aquilo tudo não passava de um sonho ruim.
O aconchego materno que aquele vulto transmetia-me, estava sumindo... Foi muito rápido. Num instante eu me via por fora, no outro eu voltara a estar dentro de meu corpo.
Quem me dera os acontecimentos que agora narrarei, tivessem sido tão rápidos quanto o anterior...
É muito difícil de explicar, antes eu me via e também sentia tudo que meu corpo estava sentindo. Agora eu simplesmente sentia.
Aquele aconchego materno foi, muito lentamente, transformando-se em uma sensação de frieza, já não me sentia mais confortável. Acordei. E então vi meu pescoço envolto em braços desconhecidos, que não me queriam bem. O ar começou a faltar-me, uma sensação gélida apoderou-se de mim, já não conseguia mais organizar pensamentos, mas sei que naquele instante pensei em muitas coisas. A visão começou a falhar, fui ficando cada vez mais fraca... Foi ai que me dei conta de que não respirava mais, e que dentro de mim existia um coração inútil.Percebi que estava morta.
Não sabia onde estava, com quem estava e muito menos quem havia cometido tamanha maldade para comigo. Não sabia o que fazer, ou para onde ir, mas sabia que estava morta.
E foi assim que eu morri. Sem saber se em sonho ou realidade, sem nenhum motivo digno e aconchegada pela morte.
Letícia Santos Ferreira
Enviado por Letícia Santos Ferreira em 04/04/2006
Código do texto: T133761
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Sobre a autora
Letícia Santos Ferreira
Mauá - São Paulo - Brasil
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Letícia Santos Ferreira