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Evolução Humana Estacionária

Evolução humana Estacionária
Uma noite num refúgio, talvez o refúgio da minha vida, com os cotovelos apoiados na janela de um pequeno, mas confortável chalé, onde somente via a penumbra, e a leve luz da lua, dando a minha visão o necessário para que delineasse suas formas. Em um instante, via a natureza em sua escuridão. Minha natureza se fez morta por uma fração de tempo. O que eu via era a natureza e as sombras, assim como eu me via.
Sabia que a natureza estava ali viva, com seus grandes nichos de grandes e pequenos animais, mas multiplicados, de insetos. Eu apenas não distinguia se eu era aquela natureza que não via, mas ainda podia delinear suas formas. A lua naquele momento era minha única amiga, me sentia então sózinho e unido com uma natureza, uma poção mágica, que, apenas o vislumbre tênue daquele instante, fazia-me beber pelos olhos.
Sem me comformar de estar sózinho no chalé que homens construíram, saí sem fazer barulho. Deixei aquele lugar que me comfortava, onde uma cama com um colchão de espuma macia pedia para que ficasse e dormisse. Com passos calmos, ouvia cada som dos meus pés sobre o gramado que provava a minha existência.  Sim, eu estava existindo sózinho até me aproximar do bosque que entrei sem hesitar. Mais alguns passos, sentei-me aos pés de algo vivo, uma árvore que sumiu com todos os infimos raios de lua. A lua já não era minha amiga, mas a árvore. Encostado nela eu já não me via. Seria eu um nada neste momento? Ou eu seria a própria natureza? Não pensei nisso e dormi com o balbucio do vento nas árvores, com o som dos pássaros noturnos, com a condição de ser eu. E um ser  que naquele lugar não poderia ser nada que não da própria natureza. Fui sucumbido por ela, pois mostrou o meu verdadeiro berço.
Sentado dormia, sentado eu sonhava. Em meu sonho estava em lugar de natureza transformada, onde os ocas não eram de palha, mas de barro. Barro transformado. Os índios cobriam suas “vergonhas” com algodão, algodão transformado, e eu estava completamente nú. Caminhava pela rua, e crianças apontavam seus dedos para o meu íntimo. Eu não entendia. Os índios adultos mostravam indiferença e viravam seus rostos. Continuei caminhando e desci uma escada de areia e pedra, como a rua, transformada. Ao pisar no último degrau observei que estava num túnel com centenas de índios apressados. Eram índios transformados.
Ali ninguém me via, esbarrava em um e em outro, com os meus passos não sabia onde ir. E fui mais além, num lugar daquele túnel onde vi um índio sozinho, olhando pedras de ferro transformada,  num buraco, lado a lado, e contínua  que atravessava todo o túnel. Olhei-o por  alguns segundos e estava com lágrimas nos olhos. Perguntei porque chorava, respondeu que o motivo das lágrimas era não poder estar como eu... nú. Indaguei-o “por que não?” Ele disse que não precisaria trabalhar para ficar como eu. Perguntei porque trabalhava e ele disse que era para dar sustento a família e não ficar... nú.  Perguntei se ainda trabalhava e a resposta foi um não baixinho. Sua cabeça caiu junto aos ombros, as mão se ataram. Nisso, um estrondo assobiava no túnel, alguma coisa se aproximava e trazia uma luz, fiquei a beira do buraco com ele olhando a luz que se tornava mais forte,  ele disse: “Deus todo poderoso, cuide de minha família e tire dela as roupas do pecado”. Tirou  o que lhe cobria o corpo rapidamente, se jogou no posso em frente da luz encandescente que o levou.
Acordei! Agora sim, claro, eu estava num metrô. O índio pecador era um cidadão desempregado que se suicidara, e a luz incandescente não era Deus, era um trem de metrô apressado como todos que estavam ali.
Na realidade já era dia, eu estava no meio da natureza, estava de roupas, tirei e fui caminhando nú, como no sonho, até a beira de um rio próximo. Fiquei ali e avistei outra árvore. Estava sem folhas, era uma árvore nua. Subi nú nos seus galhos nús. Visualizei como a correnteza desse riu não se modificava. Sua superfície não se modificava, e não teria porque se modificar, o seu fluxo era ininterrupto. Pensei, o rio não tem consciência da sua função no planeta, ele nem sabe que há outros rios, uns mais violentos, uns mais calmos, uns modificados pelo homem, outros poluídos por eles. Bem que todos bebemos da mesma água.
Pensando nisso, pensei que ainda estava sonhando. Espere um pouco! Eu ainda estava sonhando! Pronto, acordei novamente. Agora estou num apartamento no último andar de um prédio de 67 deles. Fui até a sacada, fiquei observando a cidade. Indústrias ao longe com chaminés, casas e prédios próximos.
Num desses prédios, que observava da minha janela, poderia ser chamado de o prédio da miséria humana. Agarro um binóculo para mostrar, pois de janela em janela alguma coisa está acontecendo. Numa o pai estupra a filha. Noutra, o marido espanca a mulher. Em outra, a mulher trai o marido. Noutra não há nada, foram despejados. Noutra uma dupla de ladrão saqueia as jóias da madame. Nessa mesma a polícia entra e tortura   dois ladrões, enquanto na janela de cima, um traficante mata um estudante de classe média. A parte da violência, em outra janela,  um senhor fino, que não tira seu terno nem para ver televisão, assiste o telejornal na sua tela de 50, e mais algumas polegadas, que passava a imagem de somalianos brigando por grãos de arroz misturados com grãos de terra. Isso me lembrou turistas no jardim zoológico dando  pipoca aos macacos. Ou talvez, velhos em bancos de praça, com suas pernas cruzadas dando o mesmo alimento aos pombos. Pensei, macacos e pombos não se sentem humilhados?
Abaixo o meu binóculo até o portão do edifício onde vejo um casal de mendigos deitados na calçada, aparentemente, muito felizes. Tomam cachaça como a água mais pura que se poderia encontrar, daí um deles pergunta: “porque, Ic, tanta, Ic, desgraça? Ic!, Ic!, meu  amor? Ic?, Ic?”, logo após isso regurgitou bastante, e uma senhora de alta classe que ali transitava, enrugou todo o rosto numa expressão “enojável”  e vomitou junto com ele como se quisesse fazer-lhe companhia. No seu vômito não tinha vestigios de comida, nem apoio moral?.
Acho que ainda estava sonhando, mas de todos, prefiro o da árvore nua a qual subi nú, e estava contente de observar um rio, que na hora não se modificava, mas se transformou por milhares de anos, como os homens ainda com o título de sapiens sapiens (sabe que sabe) como a biologia nos identifica. Mas não sabem que,  ainda que seus pensamentos sejam racionais, sua consciência não é diferente da consciência do rio, aquele sem consciência.
Fiquei feliz nú, na minha condição humana naquela árvore núa, que não me dava, nem mais, nem menos consciência, que de um macaco ainda em evolução biológica, e evolução humana estacionária.
Audrey Rodrigues
Enviado por Audrey Rodrigues em 16/06/2006
Código do texto: T176535
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Sobre o autor
Audrey Rodrigues
Lages - Santa Catarina - Brasil, 35 anos
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