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O Cavalo que Defecava Dinheiro - Cordel

                               O CAVALO QUE DEFECAVA DINHEIRO
                                              Leandro Gomes de Barros



Do enredo:
Dois compadres: um é pobre, o outro é rico. O pobre é esperto, ladino, que para sair da sua inconteste penúria usa de talento para conquistar o seu bem-viver. O rico por sua vez é ganancioso, cativo da sua desmedida ambição. Acontece que o primeiro para alcançar o seu intento usa de tramóias, enquanto que o duque, proprietário de terras, se apresenta aparentemente desinteressado para obter seu propósito. Esta historia fabular transcorre na cidade de Macaé. Os dois protagonistas agem dissimuladamente, explorando mutuamente suas fraquezas humanas, potencializando que os meios justificam os fins. Embuste, armadilhas, burla, golpe, logro, pabulagem e trapaça são as ferramentas de bancada que esse interesseiro e calculista dialogo revela.  Sim, porque toda a artimanha armada é cuidadosamente planejada e inteligentemente colocada para ter sucesso. Despertada a curiosidade, recursos não faltam àquele que deseja somar mais possuídos. Quer de ordem material, quer de qualidade moral, pois esta não está em jogo. Ser indecoroso faz parte do divertimento. Em alguns momentos da conversa entabulada, a comicidade evidencia quão miserável e egoísta é o ser humano. Mas nada disso incomoda a retórica dos debatedores. Cada qual usa de dissimulados argumentos para convencer o outro do favor que estaria prestando. Um faz pantomima do bem que iria se desfazer. O ambicioso já se imagina mais poderoso, mais rico com a prenda conseguida por alguns contos de réis. Sua figura se agiganta no seu ideário mesquinho. O desapossado celebra o resultado da farsa. A satisfação momentânea é seguida de revolta quando descoberto o engodo. Do outro lado, novas maquinações de embuste são engendradas para rebater a fúria do logrado. Por fim, o ludibriado consegue meter num surrão o endiabrado trapaceiro. Condenado à morte, escapa desta murmurando uma ladainha feiticeira que convence um boiadeiro viajante a tomar seu lugar para ganhar a dádiva anunciada. Resulta que algum tempo depois, o trapaceiro ressuscitado pabulando riqueza passou pela morada do compadre rico. A este foi-lhe então contado como tinha conseguido dinheiro. Incomodado pela fortuna do outro, a inveja e cupidez levaram-no a dizer que merecia uma recompensa por ter-lhe botado no caminho tamanho achado. Sem cautela, dominado pela avidez, aceita se enfiar dentro de um saco a exemplo do que fizera com o seu rico visitante. Maliciosamente e sem demora, do alto da serra o compadre recém-chegado empurra penhasco abaixo àquele que por vontade própria se entregou à cobiça e o destino cobrou com a morte.
Moral
“Aquele que ama o dinheiro nunca se fartará, e aquele que ama a riqueza não tira dela proveito”.  *Bíblia Sagrada, Eclesiastes, Vaidade das riquezas, Cap. 5, v. 9.
- A máquina de encantamentos [expressão de Jerusa Pires Ferreira] do cordel é tão generosa e rica que o imaginário em vertigem viaja para além fronteiras do fantástico. Tamanha engenhosidade criativa corresponde com as fábulas de Esopo: “O cão e o naco de carne” e “O pavão, a deusa Juno e o rouxinol”.
A primeira nos conta que: Um cão estava, certa vez, carregando um naco de carne nas presas. Quando estava atravessando um riacho, viu outro naco de carne igual na água. Ele queria abocanhar o segundo naco também e abriu a boca, deixando cair a carne que estivera segurando até então, e a água arrastou-a para longe. Assim, por causa de um naco de carne incerto, perdeu aquele que decerto lhe pertencia. Moral: Um avarento que muito quer para si e, ainda por cima, quer tomar dos outros, em geral perde o que tem.
Quanto a segunda: Um pavão foi à deusa Juno para se queixar de que não possuía uma voz adorável como o rouxinol. A deusa tranqüilizou-o com as seguintes palavras: -Não reclame e veja como você é belo em comparação com o rouxinol. Olhe só para a sua cauda, a sua coroa e a cor das suas penas. – Minha voz é áspera, o rouxinol canta muito melhor – objetou o pavão, mas a deusa Juno continuou: - Assim são as coisas neste mundo, enquanto um tem mais do que necessita, outro tem menos. Moral:  A fábula se dirige às pessoas que, embora bem dotadas, nunca têm o bastante e invejam os outros ainda por cima. E também deve-se sempre aproveitar ao máximo as vantagens que se tem.
Cotejo
A fábula e o cordel de raízes populares, veiculados a principio oralmente e tempos depois pela escrita, se imbricam na imaginação do ideário de um povo. Cenários e personagens ora de perfil mítico, ora adaptados do real são arquétipos e estereótipos construídos para viverem uma historia que satisfaça as angustias e prazeres do aqui viver. Em prosa e versificados se expandem em múltiplas linguagens nas diversas camadas sociais atendendo a um apelo moral, de costumes, de critica, circunscrevendo os feitos que a vida impõe. La Fontaine, dizia que: A fábula é uma pequena narrativa que, sob o véu da ficção, guarda uma moralidade. O humor se apresenta nas duas produções.  Transmitem ensinamentos e dão-nos índices dos comportamentos de uma dada sociedade, replicando o seu cotidiano à busca do bem-estar. O estatuto do cordel se pronuncia morfologicamente mais longo em oposição à fábula de pequeno curso. A exaltação dos animais se conjuga nas duas formas e no cordel por vezes a onipresença é pontuada. É muito singular a voz narrativa de terceira pessoa, deixa-nos acomodado para ouvir. A comunicação e o entendimento respondem à expectativa. A representatividade de símbolos e signos, significantes e significados transitam por todo o roteiro da história.  No caso presente, a ironia, o picaresco comparecem em todo o desenrolar da novela, contrapondo com a ambição, a cegueira da cobiça, a desmesurada e incontrolada vontade de possuir mais. Enfim, quem tudo quer, sem nada fica. Já dizia Salomão: “A fortuna do rico é a sua cidade forte; a pobreza dos indigentes ocasiona-lhes ruína” [Bíblia Sagrada, Provérbios de Salomão, 10, 15].

paulo costa

FONTES CONSULTADAS
BIBLIOGRAFIA

*Fábulas de Esopo, Aventinum, Praga, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 1ª ed., 1997, págs. 4 e 41.
*Fundação Joaquim Nabuco, disponível em: www.fundaj.gov.br em 18/novº/2009.

paulo costa
Enviado por paulo costa em 22/11/2009
Código do texto: T1937298

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Sobre o autor
paulo costa
São Paulo - São Paulo - Brasil, 70 anos
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