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C O N T E S T A R ... Era preciso

       

  Todo progresso, cientifico ou tecnológico,  nasce de uma contestação seguida de uma pesquisa.    Também  na Historia e na Geografia é a mesma coisa. Mas nas relações e interações humanas a Cultura é primordial.

Quem tem hoje mais de sessenta anos, viveu e conviveu, na sua infância, com a quase proibição de contestar. Nossos pais, principalmente aqueles que nasceram e moraram na roça, ferrenhos guardiões dos princípios rígidos em que foram educados, na sua maioria não permitia nem cultivava o diálogo com os filhos. Era o famoso: “o pai falou, ta falado.”

Não havendo diálogo nem contestação, tudo continuava como dantes. Não porque a nova geração não percebesse, mas porque os filhos, por respeito ou medo, não ousavam contrariar os pais.

Tudo permanecia estagnado, não por culpa apenas dos senhores pais da época, mas porque o Governo Central era omisso e, durante mais de cinqüenta anos, nada fez para melhorar a cultura do povo.

É bom lembrar que somente em 1945 o Governo se preocupou com o analfabetismo e criou os primeiros cursos de alfabetização de adultos.

Esse primeiro esforço do Governo não teve o resultado esperado, pois nem o povo estava preparado e convencido da necessidade de se alfabetizar, nem o governo havia se preparado convenientemente, com o planejamento e treinamento necessário  do pessoal que iria ensinar.
 
Quanto mais longe das Capitais dos Estados, menores os resultados.

Mal grado os esforços neste sentido, somente com a nova geração foi possível colher os primeiros resultados.

Por conta dessa situação de abandono cultural a que foram relegadas as regiões rurais, a minha geração pagou o alto preço da estagnação.

Naquela época, pouquíssimos pais conversavam com os filhos sobre os projetos de desenvolvimento patrimonial da Família. Para piorar ainda mais a situação, o pai era a figura patriarcal sobre quem recaia a responsabilidade de decidir sobre os rumos dos negócios da Família e todas a decisões necessárias para a parte operacional, desde o plantio até a colheita e distribuição dos gêneros alimentícios.

Quando falecia o pai, o irmão mais velho assumia a responsabilidade das decisões que antes cabia ao pai.

Fora desta regra, ninguém tinha coragem de se manifestar. É claro que alguns que se julgavam com direito de opinar e tinham coragem ousaram discutir o assunto e se deram mal.

Quando tinha meus treze anos de idade e já era tido como homem para desenvolver todas as atividades braçais inerentes à agricultura e, muitas vezes, solicitado para “ganhar dia” nas lavouras de outra família, observava a maneira como as plantações ali eram conduzidas. Constatei que as plantas, fossem milho ou feijão, logo após a germinação, apresentavam melhores aspectos de saúde e desenvolvimento vegetativo nos locais onde havia maior quantidade de vegetais em decomposição. Minha conclusão foi óbvia. A planta se desenvolvia melhor onde havia o elemento chamado “esterco” que provia a planta dos elementos necessários para a sua alimentação e desenvolvimento.

Com a certeza absoluta da minha conclusão do que aprendera na observação da natureza, ousei contestar o método aplicado por meu pai, na maneira de semear e cuidar da plantação.

Segundo os métodos do meu pai, quando colhíamos o feijão ou o milho, o terreno já estava coberto com o  mato que se desenvolvera no final da cultura colhida. Era a chamada “soqueira” da cana, do arroz ou a “tigüera” se do milho ou o feijão. Essa  tigüera  ou soqueira era capinada para  a preparação da terra para o plantio da nova cultura.

Aqui estava o que chamaria de erro do meu pai. Conforme seus métodos de preparação da terra para a plantação da próxima cultura, o terreno, depois de capinado e seco o mato, era totalmente varrido e amontoado toda aquela que seria a cobertura morta para a proteção do solo. Como toda aquela vegetação cortada e seca era amontoada e queimada, o solo ficava limpo e sem qualquer matéria orgânica e ainda totalmente desprotegido contra a erosão no tempo das águas.

Uma vez que o solo ficou totalmente desprotegido, a erosão lavava o que  restara da camada superficial e a terra, empobrecida de matéria orgânica, tornava-se, cada vez mais, menos produtiva. Eram, no Maximo, três culturas e a última já com resultado insatisfatório. A conseqüência deste erro eram as seguidas aberturas de novas áreas, desmatando a já escassa mata existente. Era a tradição errada herdada dos nossos antepassados.

Pois bem. Convicto de que aprendera muito bem a lição que a natureza me ensinara, pretendia agora passar ao meu pai o ensinamento e mudar os antigos métodos. Falei tudo em detalhes para o meu pai e propus mudar o sistema antigo de preparar a terra.

Que decepção! A resposta foi curta e grossa e a jamais imaginada:
     ---Quem pensa que é, menino? Há mais de quarenta anos faço o que meu pai ensinou e o faço muito bem. Você acabou de sair dos “cueiros” e está pensando que pode me ensinar? Tem que comer ainda muito feijão e arroz e aprender muito mais.

Profundamente decepcionado, não por ter perdido a batalha mas com o teor da resposta que não me permitiu qualquer argumento, calei-me para não me indispor contra meu pai, porque esta era a educação que os filhos recebiam na época.
 
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Vocábulos e expressões de uso regional:

TIGUERA = Terreno ou roça de onde foi colhida a cultura do feijão, do milho ou de ambas: milho e feijão.
SOQUEIRA =  Terreno ou roça onde foi colhida a cultura da cana ou do arroz.
GANHAR DIA OU TROCAR DIA = Ir trabalhar um dia na propriedade do vizinho ou conhecido e este retribuiria esse dia quando fosse solicitado.
MUTIRÃO = Reunião de trabalhadores vizinhos ou conhecidos que eram convidados  e reunidos para trabalhar, sem remuneração, numa propriedade, cujo proprietário fornecia a alimentação ou até promovia uma festa com danças e comilança.
Narciso de Oliveira
Enviado por Narciso de Oliveira em 22/09/2006
Reeditado em 16/08/2010
Código do texto: T246364
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Sobre o autor
Narciso de Oliveira
Campinas - São Paulo - Brasil, 82 anos
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