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Folhas de Outono

Não sei por que ao certo resolvi escrever esta história.  Não sei, mas talvez sejam os encantos da primavera que me fazem descrever situação tão inusitada. Ou talvez seja a visão de campos verdejantes em frente à minha casa e o cheiro de flores que inunda o ar. Talvez esse fato seja o reflexo de algo que eu desconheça dentro de mim mesmo. Mas a verdade é que tudo isso me fez pensar sobre a minha vida, me fez olhar para cima – e não é que, de repente, tudo parecia diferente? Pois é, que estranho, mas até a cor do céu parecia haver mudado.
Eu confesso que nunca havia pensado no meu presente ou passado. Nunca havia refletido sobre eles. Para mim, aquilo era simples preocupação de gente tola. Mas não, não era. Até o dito sonho, estranho fato, minha vida se resumia a fatos rotineiros – ler o jornal, assistir à TV nos domingos à tarde, ou apenas observar os transeuntes passearem ao redor do parque. E confesso que durante as minhas quarenta décadas de vida, nunca ao menos prestei atenção no revoar dos pássaros, nem ao menos a um bater de asas de uma andorinha.
 Mas, vamos direto ao que interessa, já que tenho certeza de que a maioria dos leitores está ansiosa para saber o que aconteceu.
Para começar, aquele dia era uma terça-feira qualquer, e eu, depois de cumprir com todos os afazeres domésticos, como fazia todos os dias, resolvi ir dormir. Não sei ao certo quando aconteceu, mas a única coisa de que me lembro era que no meu sonho tudo era muito branco e muito claro. E lá, parada, estava uma pessoa – que talvez fosse eu - e que parecia estar meio perdida.
Até que apareceram duas outras pessoas - pelo menos pareciam duas pessoas – e que avançavam com pressa na minha direção. Logo as vi com bastante clareza. Uma delas trajava roupas claras e vinha com um meio sorriso e parecia envolta numa aura de luz; já a outra trajava roupas escuras e vinha com um ar emburrado, como que meio apagada, um tanto cansada.
Digo que chegaram, e estacaram na minha frente. Para minha surpresa, estenderam as mãos ao mesmo tempo, e, ao mesmo tempo, disseram:
-Olá, querido amigo! Que bom que nós o encontramos, já que sem você nossa existência estaria fadada ao fracasso.
A única coisa que fiz foi apertar-lhes as mãos. E  logo  percebi  que aqueles dois não pareciam ser bons amigos, visto que os dois lançavam olhares acusadores um ao outro o tempo todo. Mas não é que parecia que nos conhecíamos há muito tempo?
Começaram, pois então, a discutir, e por um momento, acho que esqueceram que eu estava ali.
- Tire a mão dele, Passado vil!
- Saia daqui, Futuro inconsequente!
Pois bem, era impressão minha, ou estava conversando com o meu passado e o meu futuro? Não, acho que não. Acho que estava enlouquecendo, isso sim!
Parei, e por um momento me senti confuso, mas mesmo assim indaguei:
- Como é? Passado? Futuro?
Os dois, de repente me olharam espantados, e o cara de feição emburrada, me perguntou:
- Ora, será que não se lembra? De todas as lembranças, dos bons e velhos amigos? Sou parte de você. Tu és o que é, porque ainda vivo. Esperava um pouco mais de consideração, hein? Pois que me apresento. Sou seu passado.
Nem ao menos tive tempo de responder, e a outra pessoa já rebatia:
- Não o escute! O passado nada mais é do que um amontoado de coisas e ideias velhas. Nem merece ser lembrado! Olhe para mim, pois então. Represento o futuro de tudo. Tudo recai em mim. Sou a claridade depois do escuro, o próximo passo depois da queda, o melhor presente que se pode dar a um mortal.
- Mentira! Bobagem! – disse o Passado, mais parecendo um advogado tentando defender sua tese – Sem mim ninguém existe! Será que deseja esquecer tudo? – neste momento, se aproxima por trás e coloca as mãos nos meus ombros.
- Será que quer esquecer os amigos, as felizes e tristes lembranças, ou talvez até mesmo os seus erros. Sou a forma onde são fabricadas as suas decisões. Sou a base da tua vida. O único motivo para sentir saudades. Concorde comigo. Sei que você sabe, não é?
No mesmo instante, sem ao menos eu perceber, o Futuro dá um empurrão no Passado, e desata a dizer, numa pressa sem rumo:
- O passado sempre estará morto. Quem quer ficar olhando para você, e ver coisas tristes e pensar que pequenos momentos são a poesia de uma vida inteira? Ninguém quer olhar para um espelho quebrado o tempo todo.
- Como disse, o passado é uma poesia. O futuro é sempre igual – rebateu o Passado.
- Não para todos! Não se você souber reconhecer que numa vida tão pequena, grandes momentos podem nascer – gritou o Futuro.
- O Passado é sempre certo, a respeito dele não há dúvidas, não há pedras onde tropeçar. É em mim que mora a semente do remorso ou do orgulho – disse o Passado, com um fogo nos olhos.
- Você é podre. Aqueles que se esquecem do Presente, e vivem com você, nunca sabem qual será o próximo passo e acabam infelizes.
- O mesmo digo para você. Aqueles que vivem no futuro estão sempre na companhia da ansiedade, já que não sabem o que está por vir.
Naquela altura, tudo ao meu redor começou a girar e a ficar escuro, como se uma nuvem de poeira descesse ali. Então, depois de tanto ouvir, resolvi tomar uma posição naquela conversa:
- Creio eu que os dois são importantes. Sem um, o outro não poderia existir.
Olharam para mim furiosos e gritaram:
- Como é que é?
- Exato – disse eu – pois um completa o outro. Assim como o futuro logo se torna passado, o passado também já foi futuro.
- Como ousas dizer isso? Como ousas me comparar com esse imoral? – disse o Futuro.
- Ora, deixe disso! A beleza da vida consiste nisso. O que é a alma de um homem, a não ser seu passado?
- Concordo! – disse o Passado – creio que o senhor Presente está disposto a reconhecer minha superioridade!
O Futuro ficou sem palavras, nem se mexia, e apenas sabia me dirigir um olhar indignado.
- Aliás – disse eu, tomando coragem – o futuro fica cada vez menor com a passagem do tempo, sendo que o Passado cresce cada vez mais. É triste dizer, mas, não se morre apenas uma vez na vida. Morremos todos os dias. O passado sempre estará morto, e as lembranças são como cinzas que devem ser merecidamente guardadas.
Receio que as minhas palavras apenas vieram trazer mais discórdia naquele momento. Como último vislumbre, me lembro de ter visto os dois se entreolharem com o pior dos olhares e a pior das intenções, e então, começarem outra interminável discussão. Me lembro também de ter visto o Passado tentar acertar um tapa no Futuro, mas não sei se conseguiu.
Até agora não entendo por que não me atacaram. Poderiam muito bem me insultado e voltado toda a sua ira para mim. Mas não. Aliás, para que tanta ira? Não sei por que, mas parecia que Passado e Futuro estavam predestinados a serem eternos inimigos, como se houvesse uma linha quebrável entre eles.
Mas não importa. Só sei que dei as costas, me recusando, agora, a lembrar como ou o porquê. Nem mesmo me despedi. Que ficassem os tolos gritando um com o outro. Me sentia estranhamente superior àquilo, não suportando aquela situação.
E agora, acordado, penso que talvez nossa vida seja mesmo assim. Nosso passado e futuro parecem ficar num eterno conflito, eternas imagens em nossas mentes, que nos esquecemos do agora. Vejo que agora fecharei todas as portas todas as vezes que qualquer um destes intrusos tentar por fim à paz interior, e assim então, me refugiarei no meu pequeno mundo, que pode ser escuro, mas pelo menos tenho a certeza de que na companhia do Presente estou.
Ah, mas deixe-me ir. Como agora percebo, as folhas das árvores começam a amarelar, anunciando a chegada do outono.
Verônica Ventti
Enviado por Verônica Ventti em 02/10/2011
Código do texto: T3253565
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Verônica Ventti
Campinas/SP - Brasil, 20 anos
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