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Clean River

Não era mais que uma da tarde quando terminou sua coleta de campo. Era domingo e preparava-se para voltar para São Paulo. Pegaria uma carona com Rubens outro estagiário. Respirou como se fora a ultima vez aquele ar gostoso e úmido do interior paulista e como a arquivá-lo em sua mente, guardou tal lembrança. Sabia que estava prestes a retornar para um ambiente ‘não muito favorável’ como costumava dizer Rubens. Tentava então em seus últimos momentos fora da metrópole registrar aquelas sensações peculiares e saudosas.
Entrou no carro e no banco de co-piloto encostou a cabeça e cochilou praticamente a viagem toda. Rubens viera ouvindo música clássica, o que favoreceu o transe. Estava cansado, com o corpo fadigado, e ainda teria na segunda feira treino de futebol com o time da faculdade. Gustavo amava jogar futebol. Queria encontrar o Batata e abraçá-lo afetivamente.
Batata era um parceiro batuta, amigo feito logo nos primeiros dias de aula. Conheceram-se através do futebol e depois estenderam a amizade descobrindo muita coisa em comum.
Gustavo começava a sonhar com borboletas, quando subitamente fora despertado de seu cochilo por odores fortes e cambaleantes. Rubens já tinha na expressão a testa franzida e olhar compenetrado. Percebera que entrava na cidade de São Paulo já, onde um trânsito se formava e onde o cheiro ruim se acentuava. Estava na marginal Tietê. Onde estava o ar leve e úmido do interior? Que contraste para quem acabara de estar no campo de repente se ver no meio do barulho dos carros e do clima pesado, de cores acinzentadas e sem vegetação. Olhou para o rio e lamentou, as águas eram pretas, paradas e esgotos despejavam líquidos de diferentes cores a cada quinhentos metros. Entendeu a face fechada de Rubens. Percebeu a ausência da musica clássica que agora dava lugar ao radio falado, noticias da cidade.
Quando finalmente chegou em casa, a primeira coisa que fez foi, antes mesmo de desarrumar a mala, tomar uma bela de uma ducha. Queria tirar aquele azedo que invisivelmente sabia ter se depositado em seu corpo.
 Em seguida, sentou no computador e escreveu:
' O rio está sempre ali. Suas águas, ou melhor, seu grosso caldo espesso e inerte, viscoso e negro dá volume a um rio de sujeira e derrame de esgoto. Abandonaram o coitado usando-o como despejo de porcarias, podridão e sofrimento. É possível ver seus resquícios de pureza chorarem por misericórdia enquanto cada vez mais se polui descaradamente um vital componente. Subjugaram o coitado a mero serviçal da raça humana. Um lixão a céu aberto.
Alguém um dia estimou o quanto custará despoluí-lo. Dizem boas línguas que se tudo corresse bem demoraria cerca de cem anos, mas nunca cogitaram de fato essa possibilidade do agir. Suas soluções, seus meios, imaginam ser sem solução, além de ser conveniente e ajudar as indústrias, os esgotos, as fábricas, que jogam seus detritos nele, as pessoas desinformadas que despejam lixos e lixos nele, tudo ecoa para o rio. Como se fizesse ele um bem comum ao povo.
Conservação da natureza – educação ambiental... É profundamente estarrecedor o desrespeito ao meio ambiente, o descaso sem caso para o seu fim. Preservar o presente é dar condições de futuro.
Queria ver esse rio despoluído e enquanto isso não acontece me acometo em viagens, delírios de um sonho lindo.
O cheiro que sobe de seu leito é tão forte e triste, as margens peladas e sujas riscam a harmonia do cenário e condizem com esse todo descuidado que é a metrópole. Onde o errado percorre caminhos visíveis e ninguém faz nada, onde o inconformismo substitui-se pela acomodação. O rio corre como uma imensa massa escura pastosa e fétida rumo ao horizonte, aonde nossos olhos alcançam e depois que ele se perde na imensidão e o perdemos de vista, é como se não tivesse mais importância. Esquecemos a gravidade da poluição por não vê-la mais – o que os olhos não vem o coração não sente – Quem vai querer fazer alguma coisa para um fim tão distante da realidade, inviável nessa cruel e mal educada sociedade? Quem recuperará um rio sem esperanças?
Há quem diga já ter visto capivaras pela beira dele, por vezes surgem também algumas garças lindas e brancas que não parecem folgadas onde estão, alçando vôos rasantes a procura de alimento. Alguém acredita que nessas águas corra algum tipo de vida (tirando as microscópicas e ou anaeróbias)? A muito não se tem noticias de peixes ou vida aquática aqui. Não existe oxigênio para eles respirarem. A água não existe mais em sua essência, hoje tornou uma mistura heterogênea onde a concentração de água é mínima. A poluição substancial juntou-se à poluição visual aumentando o desprezo e a revolta por esse povo que não entende suas origens, seu passado e futuro, que não enxerga o errado, que não faz nada por si ou pelo próximo. O egoísmo apoderou-se de mentes hipócritas e de valores irrelevantes.
Só queria ver o rio lindo e limpo como deve ser.'
Toddy Graz
Enviado por Toddy Graz em 29/06/2012
Reeditado em 03/07/2012
Código do texto: T3751062

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Sobre o autor
Toddy Graz
São Paulo/SP - Brasil
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