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Memorial de Infância

  Ainda me recordo de minha infância, vivida no interior de Minas Gerais. Era um moleque sapeca que dava bastante trabalho à mamãe.
  Corria horas e horas pelo pasto afora. A primeira coisa que fazia ao acordar de manhã, sem que o sol tivesse saído, era ir tirar leite das vacas. Molhava-me muito com ele, até pegar o dom do ofício foram várias roupas e botas encharcadas de leite.
  Tinha eu uma turma de amigos e de belas amigas. Estas últimas eram de deleite para meus olhos e de descanso para os meus enfadados dias de criança em Itabira.
 Sempre quis ser doutor, desde pequeno, ainda em casa falava pra mãe que minha sina era a de ser doutor das letras. Embora não conhecera em definitivo os livros, gostava dos que já havia lido e torcia para que meu pai trouxesse novos de suas viagens, coisa rara. Meu velho só conseguia fazer esta minha vontade quando sobrava algum dinheiro, está aí uma relíquia. Nossa estada no campo ficou bem difícil.
  Havia compensações. Dessa minha ânsia por ler, papai se orgulhava muito e fazia regalos ao ego e coração dele contar aos amigos que o seu moleque, como me chamava quando pequeno, além de saber ler e escrever perfeitamente, também gostava dos livros. Mamãe não demonstrava tanto entusiasmo, vez em quando me elogiava e dava um beijo na minha testa quando lia trechos dos livros pra ela escutar. No restante do tempo, quando o assunto era este, ela murmurava pelos cantos um assim assim de desdém, porque na visão dela eu só venceria se dominasse burros e touros brabos e soubesse plantar com as próprias mãos, tal qual papai.
  Retomando as minhas brincadeiras de infância, que é o assunto em pauta, posso dizer que fui feliz em quase todas elas. Nas que não fui tão venturoso, confesso: a culpado não foi mais ninguém, se não eu mesmo. Sinto que a frase anterior carece explicação, então lá vamos, eu e o leitor já impaciente.
  Nisso me recorre uma lembrança, de uma das muitas brincadeiras em que eu não obtive sucesso. Tinha jeito de sapeca e cara de safado que estalava nas minhas bochechas redondas e vermelhas de sol e, com maior expressão de facto, nos olhos vivazes.
  As imagens se formam na minha cabeça como se tudo fora ontem. A casa de meus pais ficava no alto de uma serra bem alta, lá tinha vento forte que bagunçava os cabelos e as roupas que a gente punha no varal. Tinha também, nos fundos do terreno, quase na divisa com a fazenda do vizinho, uma árvore de muitos galhos, farta de folhas e mangas. Brincávamos horas embaixo da sombra que ela nos oferecia. Ali eu me esquecia de todo o resto, dos problemas do meu pai, dos resmungos da velha senhora e de que eu era filho único e logo voltaria à minha solidão de sempre.
  Estávamos naquela tarde de novembro em número de sete. Dos seis que me cercavam, de quatro ainda tenho notícias, os demais até a fisionomia me escapa. São detalhes que o tempo eterniza e depois apaga com borracha de pedra.
  A Eulália olhou pra mim e disse – você num vem não, fulano? Fiz com a cabeça que sim e disse que me demoraria um pouco mais, estava dando conta dos últimos capítulos das aventuras de Dom Quixote, o louco mais lúcido entre todos os que eu conheço. A meiguice disse pra eu não demorar muito que o pessoal estava com pressa. Tinha quadrilha à noitinha, precisavam colocar os pés de molho.
  Ficava eu sozinho então, sentado à beira do riacho com as canelas mergulhadas naquela água clara por onde via peixes nadando. Li algumas páginas ainda, cansei-me. Os olhos já estavam ardidos e, como mamãe dizia, ler demais faz gastar a vista.
  Minutos depois chegava eu pra brincar com a turma.
  No início fiquei meio sem graça. Afinal, não era de bom grado demorar a brincadeira no dia em que todo mundo tinha compromisso de praxe. Vergonha que não se demorou nada, logo me puxou pra roda a meiguice e me fizeram de bobo da corte.
  Brincamos de tudo um pouco. Como qualquer desajeitado que se preze, eu caía de um lado pro outro, ralava os joelhos e, por fim, até a face tinha ríspidas marcas de terra. Logo acudiam-me a meiguice e seu irmão que foram, durante longo tempo, meus vizinhos de porta e amigos do peito.
  Recordo-me que, neste mesmo dia, suado como um touro, acabei por acertar uma manga no olho de um dos meus amigos.
  - Será que você num enxerga o outro, não, fulano?
  - Foi sem querer, meiguice. Num foi por mal, eu juro.

  Todos me miravam de cima a baixo, enfim, não era de se espantar que fosse desse jeito. Eu simplesmente tinha acabado com a tarde da criançada e machucado um deles.
  Depois de curado o ferido, com a passividade de sempre, eu fui até ele e pedi perdão. Não era covarde pra não me desculpar. Se existe um ensinamento de papai que se sobrepõe a qualquer outro e que me foi ensinado com exemplo vivo foi este, um homem tem que honrar seus feitos, assumir suas culpas e carregar seu fardo, ainda que passe maus momentos por isto.
  O garoto disse que ia contar tudo pra mãe dele e que depois a gente conversava melhor. Só o tempo de ele se recuperar. Saiu agarrado na cintura da meiguice. Tive raiva, no entanto, relevei. Que podia fazer? Já havia acertado o olho do rapazinho.

  Aí se foi um dos dias mais marcantes e loucos da minha infância. As conseqüências não fugiram ao tom dos costumes da gente da roça. Tomei uma surra de cara de mangueira, castigo sem brincar mais uma semana e nada de quadrilha à noitinha.
  Não sofri com o castigo. Papai havia retornado de Belo Horizonte naquele final de semana e trouxera com ele Machado de Assis e Ponte Preta. Relaxei e embarquei em aventuras bem maiores que atirar mangas ou dançar e cantar em volta de fogueira, comendo batatas. Se bem que nada substitui o cansaço do corpo que brinca o dia inteiro, só mesmo cansaço da vista. E esse me pertencia, como pertencia.
Géssica Ranieri
Enviado por Géssica Ranieri em 11/05/2007
Reeditado em 19/05/2007
Código do texto: T483326

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Sobre a autora
Géssica Ranieri
Santo Antônio de Pádua - Rio de Janeiro - Brasil, 24 anos
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